quinta-feira, 25 de junho de 2026

BD1920. Montana Blue em "A dívida"

.Chamava-se Mannering, nome de ressonância dura, como o vento que varre as planícies de Montana, e chegara ali pobre de bens, mas rico daquela obstinação que faz dos homens mais do que simples criaturas da sorte. Trazia consigo apenas uma vaca, um cavalo e um silêncio que parecia já antigo.

Foi no caminho, esse grande livro aberto onde o destino escreve sem pedir licença, que encontrou o rapaz. Tinha dez anos, olhos de quem já vira demais e mãos vazias de futuro. Não trazia nome que pesasse, nem memória que o prendesse. Mannering olhou-o uma vez, como quem mede um terreno; à segunda, como quem o aceita.

— Vens comigo.

E assim nasceu, não uma caridade, mas uma família.

Chamava-se Lancer. Nome breve, como se fosse ainda provisório, à espera de crescer com o homem que viria a ser. Sob a tutela rude e silenciosa de Mannering, aprendeu o que não se ensina em livros: a ler o céu antes da tempestade, a escutar o chão antes do perigo, a desconfiar do homem antes de confiar no acaso. Treze anos correram, não como tempo, mas como forja, e deles saiu feito homem, inteiro e duro, como o ferro batido na bigorna do Oeste indomável.

Durante esse longo intervalo, nenhuma mulher cruzara o limiar da vida de Mannering. Não por falta delas, talvez, mas por excesso de propósito. Todo o seu afeto, se é que tal palavra cabia nele, fora gasto naquele rapaz que escolhera para filho.

Mas o destino, que tudo dá para depois cobrar, trouxe-a.

Chamava-se Sherry.

E não chegou como chegam as coisas simples. Chegou como chegam as perturbações: leve no gesto, ambígua no olhar, perigosa na inocência fingida. Não escolheu, insinuou-se. Não declarou, provocou. E, como se brincasse com dois destinos, namoriscou ambos, pai e filho, sem jamais parecer pertencer a nenhum.

Mannering, que enfrentara homens e desertos sem tremer, rendeu-se. Não com a dignidade de quem ama, mas com a vertigem de quem se perde. Amou-a como um louco e talvez fosse isso mesmo que nele despertara: uma loucura adormecida, antiga como o seu silêncio.

Lancer, por seu turno, não era menos homem por ter sido feito à imagem do outro. Onde o mestre caía, o discípulo não recuava. E assim, sem palavras que resolvessem, sem leis que acudissem, ficaram os dois diante de um abismo que só podia ter uma saída.

Matar-se-iam.

E ela?

Ah, ela não escolheria antes do tempo, porque as mulheres como Sherry não escolhem, aguardam. Ficaria com o que restasse. Com o sobrevivente, não por amor, mas por continuidade.

Porque, no fim, nada perderia.

É mulher. E, nesse jogo antigo onde os homens apostam a vida, ela é sempre quem recolhe as fichas.

E foi àquele local que chegou Montana Blue…

 

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