terça-feira, 6 de outubro de 2026

BD1961. Bessy em "Lobo e Blanca"

.Se procurarmos nesta aventura apenas a perseguição, os tiros, os uivos e a luta entre homens e lobos, ficaremos pela rama da história. Mas, lida com olhos atentos, ela encerra um drama mais fundo, muito próximo daquele que Miguel Torga tantas vezes encontrou na serra: o conflito eterno entre a liberdade selvagem e a ordem dos homens.

Lobo e Branca não são monstros. São criaturas da terra, obedecendo à lei antiga da sobrevivência. Caçam porque têm fome, fogem porque são perseguidos e lutam porque a natureza não lhes concedeu outra forma de existir. Os homens, por sua vez, defendem o seu gado, as suas casas e a sua tranquilidade. Nenhum dos lados é verdadeiramente culpado. Cada um cumpre o destino que lhe foi imposto.

É Bessy quem ocupa o lugar mais trágico da narrativa. Entre os homens que a criaram e os lobos que aprendeu a compreender, ela vive dividida. O seu drama não é o da força, mas o da fidelidade. Ama os homens, mas reconhece nos lobos uma fraternidade mais funda, feita de instinto e sofrimento. Por isso sofre quando os vê perseguidos, e sofre igualmente quando os vê ameaçar aqueles a quem pertence.

Miguel Torga talvez visse nela a imagem do próprio homem: um ser suspenso entre a civilização e a natureza, incapaz de renunciar completamente a qualquer delas. Como o médico-escritor transmontano tantas vezes mostrou, há na vida rural uma grandeza silenciosa que nasce precisamente desse confronto. O lobo representa a liberdade indomável; o rancho representa a segurança e a lei. Entre ambos, Bessy procura uma impossível reconciliação.

O desfecho é revelador. Não há vitória triunfal nem derrota absoluta. Os lobos sobrevivem e regressam à sua condição errante. Os homens conservam a paz do seu território. E Bessy fica a contemplar a partida dos seus antigos companheiros, como quem percebe que certos afetos não podem ser possuídos nem aprisionados.

A aventura termina, mas deixa uma melancolia discreta. A mesma melancolia que atravessa muitas páginas de Torga: a consciência de que a natureza não conhece vencedores, apenas seres que lutam, resistem e continuam caminho. Os lobos desaparecem na distância, e nós ficamos com a sensação de que pertencem mais à montanha do que a qualquer história. Porque, no fundo, a liberdade é sempre uma estrada que se perde no horizonte.

Nota: por "acidentes de percurso", por vezes, o nome da loba aparece como "Branca" outras como "Blanca".

 

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