E se, um dia, quando o peso dos anos lhe tivesse roubado a
força e o tempo lhe tivesse levado quase todos os sonhos, Blueberry desejasse
apenas voltar a encontrar a sua adorada Chihuahua Pearl?
Imaginemos, então, uma última cavalgada. Lado a lado, como
tantas vezes haviam sonhado, atravessariam as planícies douradas do Oeste,
enquanto o sol se despedia lentamente das montanhas.
«Vamos em frente, Chihuahua», diria ele, com aquela ternura
que raramente deixava transparecer.
E ela sorriria, com os olhos cheios da luz de outros tempos.
Depois, à sombra de uma velha árvore, descansariam
finalmente. Pearl encostaria a cabeça ao ombro do seu Mike e ele,
acariciando-lhe os cabelos dourados, beijá-la-ia com a doçura de quem sabe que
há instantes que valem uma eternidade.
O vento deixaria de soprar. Os pássaros calar-se-iam. Até o
tempo pareceria suspender a sua marcha.
Uma névoa suave envolveria os dois amantes e, lentamente,
como se o próprio céu os chamasse, as suas almas elevar-se-iam, de mãos dadas,
sorridentes, libertas de todas as dores e de todas as saudades.
Lá em baixo ficariam os cavalos, a velha árvore e os
caminhos poeirentos de um Oeste que nunca mais os veria passar.
Blueberry, que tantas vezes cavalgara ao encontro da
morte, partiria agora ao encontro do amor, acompanhando a sua Chihuahua Pearl
até ao País das Caçadas Eternas.
Esta não é a história que os seus criadores escreveram. É
apenas a despedida que, por um instante, ousámos imaginar para duas personagens
que aprendemos a amar.
Porque talvez exista, para além do último horizonte, uma
pradaria onde o sol nunca se põe, onde os cavalos nunca se cansam e onde dois
corações apaixonados podem finalmente descansar.
E, nessa pradaria sem fim, Mike e Pearl continuariam a cavalgar juntos. Para sempre.



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