terça-feira, 21 de julho de 2026

BD1931. Colecção Águia, 88. Um fantasma entre os Sioux

Ao deparar com esta imagem, tão simples no traço, tão rica no dizer, senti-me transportado não para as planícies da América, mas para os vastos campos da imaginação humana, onde cada homem é, afinal, estrangeiro de si mesmo.

Eis que surge, altivo no seu cavalo, um filho da terra, chamam-lhe Voz de Trovão, nome que ressoa como destino. Não teme, dizem. E quem somos nós, pobres habitantes de cidades murmurantes, para duvidar de semelhante afirmação? Não teme, mas, contudo, procura proteção. Ah! que paradoxo tão humano! Porque não há coragem que dispense abrigo, nem bravura que não conheça, ainda que por um instante, a sombra da dúvida.

Mas detenhamo-nos um pouco, como faria um prudente professor de ciências naturais diante de um fenómeno curioso e perguntemos: que força invisível leva este homem, símbolo de independência, a dirigir-se ao “chefe branco”? Será o medo que não conhece, ou antes uma necessidade que não compreende?

Assim, esta capa, que ora se destina a encerrar o número 88 da prestigiada coleção Águia, não é apenas promessa de aventura. É convite à reflexão. Um fantasma entre os Sioux? Talvez. Mas mais fantasmagórico ainda é este diálogo silencioso entre mundos, onde cada figura procura, à sua maneira, um lugar de pertença.

E se me permitem a ousadia, direi: não é o índio que vagueia como fantasma, somos nós, leitores apressados, que por vezes passamos pelas histórias sem verdadeiramente as habitar.

Fiquemos, pois. E escutemos. Porque até a Voz de Trovão, no seu silêncio desenhado, tem muito que nos dizer.

 

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