sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Uma noiva para Bill, o Sorridente

É extremamente interessante e revelador a evolução editorial e artística destas coleções populares de western em Portugal e Espanha.

Francisco Cueto estabeleceu para Bill, o Sorridente uma identidade visual relativamente clássica: o herói errante, seguro, viril, pouco vulnerável emocionalmente. As suas aventuras pertencem ao western tradicional de aventura contínua, muito próximo dos cowboys íntegros da escola italiana e espanhola dos anos 50. Mesmo quando havia romance, este era episódico, decorativo, quase obrigatório, mas nunca transformador. Bill partia sempre sozinho.

Ora, quando surge José Luis de la Fuente, nota-se imediatamente outra sensibilidade narrativa.

De la Fuente tinha um desenho mais dramático, mais humano e emocionalmente carregado. Os rostos têm fadiga, peso psicológico, melancolia. As figuras femininas ganham presença real e não apenas ornamental. E sobretudo: ele desenhava muito bem relações humanas. Não apenas tiroteios.

Por isso não é acaso que justamente nesta aventura apareça Françoise.

A loira não entra apenas como “rapariga da história”; ela funciona como ameaça simbólica ao próprio mito de Bill. O western clássico vive da mobilidade: cavalo, horizonte, estrada. O herói não pode fixar-se sem destruir o arquétipo. Quando um autor tenta aproximar o cowboy do amor, está quase sempre a experimentar uma humanização moderna da personagem.

E José Luis de la Fuente parece fazer exatamente isso.

O “Virginiano” não é apenas um episódio de ação: é uma história de herança moral e possibilidade de redenção. O velho militar-bandido percebe que falhou como homem e como pai. Bill, pelo contrário, representa para Françoise uma hipótese de futuro honrado. Daí o pedido final do moribundo ter tanto peso dramático.

Mas repara no detalhe essencial: a promessa de Bill acontece perante um morto iminente.

Isto é profundamente romântico no sentido clássico — quase teatral. O herói promete porque está diante da tragédia, da emoção extrema, do olhar suplicante de um homem vencido. Contudo, depois, regressa o silêncio das pradarias. E aí começa o verdadeiro conflito.

Pode um herói popular como Bill casar?

Editorialmente, quase nunca.

Porque o cowboy casado deixa de poder ser errante. O casamento mata parcialmente a fórmula serial. Um homem com esposa e casa deixa de atravessar livremente fronteiras, saloons, guerras e emboscadas. Perde a solidão mítica.

Talvez por isso esta aventura tenha um sabor tão singular dentro da série. Parece quase uma experiência narrativa: “e se Bill pudesse amar verdadeiramente?”

E é curioso que isso aconteça justamente com um desenhador diferente do habitual. Muitas vezes, nestas séries populares, quando entrava outro artista, entrava também outro tom emocional. O novo desenhador aproveitava a personagem para explorar territórios que o titular raramente tocava.

Françoise, aliás, encaixa num modelo muito típico do romantismo western europeu: a mulher loira, delicada, sentimental, quase civilizadora. Ela representa casa, estabilidade, ternura — tudo aquilo que o Oeste brutal não consegue conservar.

Por isso o final fica suspenso numa pergunta melancólica:

Bill cumprirá a promessa?

Ou continuará condenado a cavalgar sozinho, levando consigo apenas a memória de uma rapariga loira que, por breves dias, lhe fez acreditar que poderia existir outra vida além das pradarias?

 

Sem comentários:

Enviar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...