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Graças a ela, passaram…
No silêncio tenso da planície, onde o vento levanta poeira
como se quisesse apagar os rastos dos homens, cruzam-se destinos que há muito
se perseguiam sem se encontrarem.
Os cavaleiros aproximam-se devagar. Há desconfiança nos
gestos, mãos que não se afastam das armas, olhos que medem cada movimento. Mas,
no instante em que a jovem ergue o rosto e fixa o coronel, algo se rompe, não o
perigo, não ainda, mas uma memória, um reconhecimento que vem de longe, como um
eco esquecido.
“Pai…”
A palavra sai-lhe quase sem querer, frágil e absoluta. E o
homem, endurecido por anos de comando e ausência, vacila. Não é o soldado que
responde, é o pai, enterrado sob camadas de dever e silêncio. Aproxima-se, como
quem teme que o sonho se desfaça, e segura-lhe os ombros, como se precisasse de
a sentir real.
Mas o mundo não suspende o seu curso por causa de um
reencontro.
À volta, os homens trocam olhares. Há nomes que pesam,
Kiowas, deserções, raptos, histórias que não cabem numa simples explicação. A
verdade emerge aos pedaços, dita em frases curtas, interrompidas, como se cada
revelação abrisse uma nova ferida. A jovem viveu entre dois mundos; foi filha,
prisioneira, talvez ponte entre inimigos que nunca se quiseram compreender.
E há outro, o “Castor Cinzento”, figura ausente mas presente
em cada palavra. Não é apenas um nome: é uma escolha, uma dívida, talvez um
afeto que desafia as fronteiras traçadas pelos homens brancos. Pedem-lhe que o
traia, que o entregue. Ela hesita. Nos seus olhos, o conflito é claro: sangue
ou lealdade? origem ou experiência?
O coronel, agora pai antes de tudo, quer protegê-la, mas não
sabe de quê. Do perigo que a rodeia? Ou das decisões que ela terá de tomar?
Ao longe, surgem figuras. Os Kiowas. A tensão adensa-se como
nuvem de tempestade. Há gritos contidos, ordens prontas a rebentar. Um passo em
falso, e tudo se perde.
“Não lutem contra ele”, pede ela, quase num sussurro
desesperado. Não é apenas medo, é conhecimento. Sabe o que está em jogo, mais
do que qualquer daqueles homens.
E então, no meio desse impasse, dá-se o gesto mais difícil:
o de deixar partir. Não há vitória, não há reconciliação plena, apenas a
aceitação amarga de que nem todos os laços podem ser mantidos sem quebrar
outros.
Ela afasta-se, lenta, sem olhar para trás de imediato. O pai
fica, imóvel, dividido entre correr atrás dela ou respeitar a escolha que não
compreende totalmente. O vento passa entre ambos, indiferente.
Naquela terra de fronteira, ninguém sai ileso. Nem os que partem, nem os que ficam.
Foi no caminho, esse grande livro aberto onde o destino
escreve sem pedir licença, que encontrou o rapaz. Tinha dez anos, olhos de quem
já vira demais e mãos vazias de futuro. Não trazia nome que pesasse, nem
memória que o prendesse. Mannering olhou-o uma vez, como quem mede um terreno;
à segunda, como quem o aceita.
— Vens comigo.
E assim nasceu, não uma caridade, mas uma família.
Chamava-se Lancer. Nome breve, como se fosse ainda
provisório, à espera de crescer com o homem que viria a ser. Sob a tutela rude
e silenciosa de Mannering, aprendeu o que não se ensina em livros: a ler o céu
antes da tempestade, a escutar o chão antes do perigo, a desconfiar do homem
antes de confiar no acaso. Treze anos correram, não como tempo, mas como forja,
e deles saiu feito homem, inteiro e duro, como o ferro batido na bigorna do
Oeste indomável.
Durante esse longo intervalo, nenhuma mulher cruzara o
limiar da vida de Mannering. Não por falta delas, talvez, mas por excesso de
propósito. Todo o seu afeto, se é que tal palavra cabia nele, fora gasto
naquele rapaz que escolhera para filho.
Mas o destino, que tudo dá para depois cobrar, trouxe-a.
Chamava-se Sherry.
E não chegou como chegam as coisas simples. Chegou como
chegam as perturbações: leve no gesto, ambígua no olhar, perigosa na inocência
fingida. Não escolheu, insinuou-se. Não declarou, provocou. E, como se
brincasse com dois destinos, namoriscou ambos, pai e filho, sem jamais parecer
pertencer a nenhum.
Mannering, que enfrentara homens e desertos sem tremer,
rendeu-se. Não com a dignidade de quem ama, mas com a vertigem de quem se
perde. Amou-a como um louco e talvez fosse isso mesmo que nele despertara: uma
loucura adormecida, antiga como o seu silêncio.
Lancer, por seu turno, não era menos homem por ter sido
feito à imagem do outro. Onde o mestre caía, o discípulo não recuava. E assim,
sem palavras que resolvessem, sem leis que acudissem, ficaram os dois diante de
um abismo que só podia ter uma saída.
Matar-se-iam.
E ela?
Ah, ela não escolheria antes do tempo, porque as mulheres
como Sherry não escolhem, aguardam. Ficaria com o que restasse. Com o
sobrevivente, não por amor, mas por continuidade.
Porque, no fim, nada perderia.
É mulher. E, nesse jogo antigo onde os homens apostam a
vida, ela é sempre quem recolhe as fichas.
E foi àquele local que chegou Montana Blue…
Connors, esse eterno estrangeiro, não só de terras, mas de
certezas, deixara-se cair sobre a neve como quem aceita, por um instante, a
inutilidade de caminhar. Havia nele uma indiferença estudada, quase teatral,
que ocultava mais do que revelava. Não era homem de confiar, nem de ser
confiado.
Foi então que a viu.
Não como se vê uma mulher, mas como se reconhece um enigma.
Ela ali estava, envolta em peles e altivez, como uma dessas
figuras que o frio não dobra, antes endurece. Havia no seu gesto uma elegância
que não pertencia àquele lugar — e por isso mesmo denunciava mais do que
qualquer palavra. Não era da estepe; era do mundo. E o mundo, como Connors bem
sabia, é sempre mais perigoso que o deserto.
— Então, és a esposa de Halavy? — disse ele, com aquele meio
sorriso que não pedia resposta, mas provocava uma.
Ela estremeceu — não de frio, mas de orgulho.
— Esposa? Eu? — e os seus olhos, que antes apenas
observavam, passaram a ferir. — Não me insultes.
Ah! Como são rápidas as almas a defender aquilo que nunca
aceitaram possuir… Connors reconheceu naquele ímpeto não a ofensa, mas a
revelação. Aquela mulher não pertencia a ninguém e talvez fosse esse o seu
maior perigo.
Ficaram assim, por um instante que poderia ter sido eterno:
partilhando o mesmo espaço, o mesmo frio, mas não o mesmo mundo.
Entre eles, uma chávena de metal, pobre, vulgar, passava de
mão em mão como um pacto silencioso. Não era hospitalidade; era reconhecimento.
Cada um via no outro não um aliado, mas um igual e isso bastava.
Ao longe, o motor de um camião ressoava, lembrando-lhes que
o mundo continuava, indiferente, como sempre, às pequenas tragédias e às
discretas ironias dos encontros humanos.
E a estepe, essa velha testemunha, guardava mais um segredo:
o de dois viajantes que, sem o saberem, haviam medido forças, não com armas,
mas com palavras; não com gestos, mas com silêncios.
Porque há combates, meu amigo, que não deixam mortos, mas também não deixam vencedores.
Ao centro, a cena divide-se em dois mundos que se interpenetram. Em primeiro plano, Gringo, rosto tenso, olhar firme, mãos seguras na espingarda, encarna a razão prática, o homem de carne que age, que dispara, que decide. Há nele a determinação dos heróis clássicos, mas também a solidão de quem combate o desconhecido sem mapa nem consolo.
Por detrás, porém, ergue-se o verdadeiro protagonista: o “cavaleiro fantasma”. Não é figura nítida, mas sugestão, um vulto encapuzado, olhos que brilham no escuro como duas perguntas sem resposta. Não sabemos se é homem, espectro ou metáfora. E talvez aí resida a sua força: no não se deixar explicar.
Perguntará o leitor, e bem, quem persegue quem nesta composição? Será o gringo o caçador, ou já a presa de um enigma que o excede? A arma aponta para a frente, mas o perigo parece vir de trás, do invisível, do que não se pode atingir com balas.
Há ainda um detalhe curioso: os olhos que surgem na sombra, quase duplicados, como se o próprio cenário observasse. A natureza deixa de ser cenário passivo e torna-se cúmplice do mistério, uma ideia cara ao romantismo, onde o mundo exterior reflete as inquietações do espírito.
Como é natural, chegou o dia em que Lucky Luke havia de ter uma noiva e abandonar as pradarias para se dedicar ao terno conforto do lar. Talvez Jolly Jumper não goste muito da ideia, mas a verdade é que a noiva do cow-boy mais rápido que a própria sombra tem a sua graça.
Voltamos ao ambiente do Jornal da BD, iniciando aqui a publicação do Volume 30 com mais algumas páginas de Boule e Bill.