quinta-feira, 16 de julho de 2026

BD1929. Coleção Ciclone, 66. Lonely Rock em "O fantasma do enforcado"

Esta é a segunda aventura de Lonely Rock inserida no Ciclone 66. 

Naquela rua que não conheço, mas que reconheço como se nela tivesse vivido uma infância que nunca tive, há homens parados diante de outro homem que também está parado. E toda a tragédia consiste nisto: ninguém avança, e contudo tudo já aconteceu.

Interrogam-no sobre o fantasma do enforcado.
Mas o que é um fantasma senão a persistência de uma injustiça na memória dos outros?

Veemque empunha um revólver e essa simples incongruência basta para desfazer o medo em raciocínio, não fosse o homem um animal que prefere o terror à explicação. Porque um fantasma com arma é apenas um homem com história. E talvez seja isso que mais assusta: não o sobrenatural, mas o passado que regressa armado.

Imagino o cadáver desaparecido do cadafalso. Não o vejo a levantar-se, isso seria demasiado claro, mas antes a faltar, como faltam as certezas quando as procuramos. E dessa ausência nasce tudo: o rumor, a lenda, a inevitabilidade de que alguém pagará por algo que nunca chegou a ser compreendido.

Os homens que observam, chapéus baixos, olhos semicerrados, não esperam apenas um tiro. Esperam confirmação. Querem saber se o mundo ainda obedece às regras simples: vida, morte, culpa, castigo. Mas o homem de costas, esse que enfrenta todos, já não pertence a essas regras. É mais ideia do que corpo.

Talvez nunca tenha havido fantasma algum.
Talvez o enforcado não tenha morrido.
Ou talvez todos ali estejam mortos de antemão, condenados pela necessidade de acreditar numa história que lhes dê sentido.

E eu, que nada tenho que ver com aquela rua, sinto contudo que também ali estou, não entre os homens, mas entre as dúvidas. Porque toda a vida é isto: um cadafalso de certezas de onde desaparece, inesperadamente, aquilo que julgávamos definitivo.

E ficamos, como eles, à espera do disparo que nos explique.

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

BD1928. Colecção Águia, 88. O rancho felicidade

Há, nesta imagem, um silêncio que fala e fala alto. Um homem curvado, não tanto pelo peso do corpo, mas pelo da história que traz consigo. O cavalo, igualmente vencido, parece compreender que não transporta apenas um cavaleiro, mas uma vida inteira de pólvora, de poeira e de destinos adiados. O traço negro, rude, quase áspero, não ilustra: testemunha.

Dizem-nos que era pistoleiro. E basta olhar para ele para perceber que não era dos de lenda fácil, desses que o romance pinta com bravura leve e sorriso pronto. Não, este traz o cansaço inscrito nas costas, a morte insinuada no gesto, e talvez, quem sabe, um resto de humanidade que nem as balas conseguiram expulsar.

Chegou ao Rancho Felicidade com chumbo no corpo. Que ironia, leitor atento: a felicidade, esse nome tão cheio, a acolher um homem esvaziado pela violência. E, contudo, acolheram-no. Eis o ponto que merece detença, não a sua fama, não os seus feitos, mas o gesto daqueles que, contra a lógica do Oeste e das suas leis secas, decidiram cuidar.

Dir-me-á o leitor e com razão: “Mas que redenção pode haver num homem assim?” E eu respondo-lhe, à maneira dos velhos mestres: talvez nenhuma. Ou talvez toda. Porque há vidas que não se salvam por inteiro, mas que encontram, no derradeiro instante, uma razão que as justifique.

Caiu em combate, dizem. Não por ouro, não por glória, mas para garantir a felicidade dos seus amigos. Eis o verdadeiro desvio do destino: o homem que viveu pela arma, morre por algo que não se pode disparar, a felicidade alheia.

E aqui, permitam-me um breve desvio, como faria um professor diante dos seus alunos mais inquietos: que força é esta que leva um homem, moldado pela violência, a escolher, no fim, o sacrifício? Será remorso? Será afeição? Ou será apenas o último capricho de uma consciência que, afinal, nunca esteve completamente morta?

A imagem não responde. Limita-se a sugerir. E talvez seja esse o seu maior mérito.

Assim, entre o pó do caminho e a sombra da caverna, fica-nos a figura desse pistoleiro, não como herói, nem como vilão, mas como homem. E, como todos os homens, contraditório, imperfeito, e capaz, no instante final, de surpreender o próprio destino.

Porque, no fim, meu caro leitor, a felicidade, mesmo a de um rancho perdido, constrói-se, não raras vezes, sobre os ombros cansados daqueles que já pouco esperam dela.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

BD1926. Coleção Ciclone, 66. Lonely Rock em "Armadilha para um inocente"

 

O Ciclone 66 traz-nos quatro aventuras que vamos apresentar ao longo das prócximas semanas. Mas a primeira obriga-nos a refletir.
Não há maior desgraça, leitor, do que aquela em que a verdade se dissolve, não por mentira, mas por excesso de versões. 
Naquela noite, noite sem nome, como tantas que fazem história, houve vinho, houve palavras mais duras que o costume, e houve, sobretudo, o velho impulso humano de se meter onde não é chamado. 
Assim entrou Tom Morrow na contenda: não como culpado, mas como instrumento. Lutou e talvez nem soubesse contra quem. E quando o braço se ergueu, e o ferro falou, já não era vontade que o guiava, mas instinto. 
Porque o homem, quando cercado, não raciocina, defende-se. Eis senão quando, no auge do tumulto, alguém, mão invisível, consciência ausente, apaga a luz. Oh! fatal instante esse, em que a escuridão não é ausência de claridade, mas nascimento de todas as culpas. 
Quem viu? 
Quem sabe? 
Quem pode jurar o que ali se passou? Mas a luz voltou e com ela, não a verdade, mas a autoridade. “Considera-te preso!” — disse-se. E assim se faz justiça, muitas vezes: não pelo que se prova, mas pelo que convém concluir.
Mas será que as coisas ficarão assim? A última palavra é de Lonely Rock.

terça-feira, 7 de julho de 2026

BD1925. Coleção Águia, 88. Rio Tenebroso

A prancha abre como um suspiro antigo do Oeste: traço firme, sombras duras, silêncio quente. Sob o título “Rio Tenebroso”, dois cavaleiros recortam-se na vastidão árida — o xerife Jeff Colt, de porte resoluto, e o seu companheiro Lince, cuja figura parece escutar mais do que ver. O cenário é de pedra, cacto e distância; um mundo onde a sede é mais do que física — é também moral.

Logo nas vinhetas seguintes, a inquietação instala-se. A frase — “Se não encontrar água, Lince ‘morrerá’ seco…” — paira como sentença bíblica. Não é apenas a sobrevivência que está em jogo; é o limite do homem perante a natureza e, talvez, perante si próprio. Garrett teria gostado deste contraste: o heroísmo calado, quase trágico, de quem avança sem garantias, guiado por um código invisível.

E eis que surge o indício — miragem ou promessa? “Olhar! É miragem ou água?” pergunta-se, e nessa dúvida cabe toda a condição humana: ver e não saber, desejar e temer. O cavalo empina-se, como se também ele fosse tocado pelo pressentimento. A terra, antes muda, parece agora conspirar com o destino.

Mas há um detalhe que merece pausa — Jeff Colt, o xerife negro, figura rara e digna, que não pede licença para existir naquele mundo de fronteira. Garrett, sensível às contradições do seu tempo, talvez nele visse um símbolo: o homem que, carregando o peso de olhares e preconceitos, se ergue ainda assim como guardião da justiça. E Lince, o indígena, não como sombra exótica, mas como consciência da terra, aquele que lê sinais onde outros só veem poeira.

Que encontrarão eles naquele rio?

Não apenas água, isso seria pouco. O “rio tenebroso” anuncia mais: talvez um refúgio envenenado, talvez homens piores que a seca, talvez a prova última daquilo que são. Porque, como nas melhores narrativas românticas, o cenário não é cenário, é espelho. E o rio, ao invés de saciar, poderá revelar.

Assim começa a jornada: dois paladinos, não de capa, mas de poeira e suor, avançando para onde o mapa se desfaz e a moral é testada. E nós, leitores, seguimos atrás, não pela água, mas pela verdade que corre, escura, nas margens desse rio.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

BD1923. Coleção Ciclone, nº 60

Raptada há muitos anos, tinha sido adotada pelo grande chefe Kiowa. E foi num dia que a caravana ali chegou, precedida de soldados que ela foi reconhecida pelo comandante destes. Era tal e qual a figura da mãe.

Graças a ela, passaram…

No silêncio tenso da planície, onde o vento levanta poeira como se quisesse apagar os rastos dos homens, cruzam-se destinos que há muito se perseguiam sem se encontrarem.

Os cavaleiros aproximam-se devagar. Há desconfiança nos gestos, mãos que não se afastam das armas, olhos que medem cada movimento. Mas, no instante em que a jovem ergue o rosto e fixa o coronel, algo se rompe, não o perigo, não ainda, mas uma memória, um reconhecimento que vem de longe, como um eco esquecido.

“Pai…”

A palavra sai-lhe quase sem querer, frágil e absoluta. E o homem, endurecido por anos de comando e ausência, vacila. Não é o soldado que responde, é o pai, enterrado sob camadas de dever e silêncio. Aproxima-se, como quem teme que o sonho se desfaça, e segura-lhe os ombros, como se precisasse de a sentir real.

Mas o mundo não suspende o seu curso por causa de um reencontro.

À volta, os homens trocam olhares. Há nomes que pesam, Kiowas, deserções, raptos, histórias que não cabem numa simples explicação. A verdade emerge aos pedaços, dita em frases curtas, interrompidas, como se cada revelação abrisse uma nova ferida. A jovem viveu entre dois mundos; foi filha, prisioneira, talvez ponte entre inimigos que nunca se quiseram compreender.

E há outro, o “Castor Cinzento”, figura ausente mas presente em cada palavra. Não é apenas um nome: é uma escolha, uma dívida, talvez um afeto que desafia as fronteiras traçadas pelos homens brancos. Pedem-lhe que o traia, que o entregue. Ela hesita. Nos seus olhos, o conflito é claro: sangue ou lealdade? origem ou experiência?

O coronel, agora pai antes de tudo, quer protegê-la, mas não sabe de quê. Do perigo que a rodeia? Ou das decisões que ela terá de tomar?

Ao longe, surgem figuras. Os Kiowas. A tensão adensa-se como nuvem de tempestade. Há gritos contidos, ordens prontas a rebentar. Um passo em falso, e tudo se perde.

“Não lutem contra ele”, pede ela, quase num sussurro desesperado. Não é apenas medo, é conhecimento. Sabe o que está em jogo, mais do que qualquer daqueles homens.

E então, no meio desse impasse, dá-se o gesto mais difícil: o de deixar partir. Não há vitória, não há reconciliação plena, apenas a aceitação amarga de que nem todos os laços podem ser mantidos sem quebrar outros.

Ela afasta-se, lenta, sem olhar para trás de imediato. O pai fica, imóvel, dividido entre correr atrás dela ou respeitar a escolha que não compreende totalmente. O vento passa entre ambos, indiferente.

Naquela terra de fronteira, ninguém sai ileso. Nem os que partem, nem os que ficam.

terça-feira, 30 de junho de 2026

BD1922. Uma aventura do Zorro. O Rapto

O Volume 30 do Jornal da BD apresenta-nos três aventuras do Zorro. A que aqui publicamos tem por título "O Rapto". Será que o nosso herói consegue frustrar os planos dos mexicanos corruptos?

sábado, 27 de junho de 2026

BD1921. Gringo em "A fuga do condenado"

Terminamos a publicação do Mundo de Aventuras 1145 com mais uma aventura de Gringo de título "A fuga do condenado". O homem fugiu, é verdade, mas acabou pendurado numa árvore...

quinta-feira, 25 de junho de 2026

BD1920. Montana Blue em "A dívida"

.Chamava-se Mannering, nome de ressonância dura, como o vento que varre as planícies de Montana, e chegara ali pobre de bens, mas rico daquela obstinação que faz dos homens mais do que simples criaturas da sorte. Trazia consigo apenas uma vaca, um cavalo e um silêncio que parecia já antigo.

Foi no caminho, esse grande livro aberto onde o destino escreve sem pedir licença, que encontrou o rapaz. Tinha dez anos, olhos de quem já vira demais e mãos vazias de futuro. Não trazia nome que pesasse, nem memória que o prendesse. Mannering olhou-o uma vez, como quem mede um terreno; à segunda, como quem o aceita.

— Vens comigo.

E assim nasceu, não uma caridade, mas uma família.

Chamava-se Lancer. Nome breve, como se fosse ainda provisório, à espera de crescer com o homem que viria a ser. Sob a tutela rude e silenciosa de Mannering, aprendeu o que não se ensina em livros: a ler o céu antes da tempestade, a escutar o chão antes do perigo, a desconfiar do homem antes de confiar no acaso. Treze anos correram, não como tempo, mas como forja, e deles saiu feito homem, inteiro e duro, como o ferro batido na bigorna do Oeste indomável.

Durante esse longo intervalo, nenhuma mulher cruzara o limiar da vida de Mannering. Não por falta delas, talvez, mas por excesso de propósito. Todo o seu afeto, se é que tal palavra cabia nele, fora gasto naquele rapaz que escolhera para filho.

Mas o destino, que tudo dá para depois cobrar, trouxe-a.

Chamava-se Sherry.

E não chegou como chegam as coisas simples. Chegou como chegam as perturbações: leve no gesto, ambígua no olhar, perigosa na inocência fingida. Não escolheu, insinuou-se. Não declarou, provocou. E, como se brincasse com dois destinos, namoriscou ambos, pai e filho, sem jamais parecer pertencer a nenhum.

Mannering, que enfrentara homens e desertos sem tremer, rendeu-se. Não com a dignidade de quem ama, mas com a vertigem de quem se perde. Amou-a como um louco e talvez fosse isso mesmo que nele despertara: uma loucura adormecida, antiga como o seu silêncio.

Lancer, por seu turno, não era menos homem por ter sido feito à imagem do outro. Onde o mestre caía, o discípulo não recuava. E assim, sem palavras que resolvessem, sem leis que acudissem, ficaram os dois diante de um abismo que só podia ter uma saída.

Matar-se-iam.

E ela?

Ah, ela não escolheria antes do tempo, porque as mulheres como Sherry não escolhem, aguardam. Ficaria com o que restasse. Com o sobrevivente, não por amor, mas por continuidade.

Porque, no fim, nada perderia.

É mulher. E, nesse jogo antigo onde os homens apostam a vida, ela é sempre quem recolhe as fichas.

E foi àquele local que chegou Montana Blue…

terça-feira, 23 de junho de 2026

BD1919. Kozakovich & Connors. Uma noite de chuva de oiro

Era noite, dessas noites que não pertencem ao tempo, mas ao silêncio. A estepe estendia-se infinita, branca e muda, como um pensamento que ninguém ousa concluir. E ali, naquele recorte de mundo esquecido, dois destinos cruzavam-se sem aviso, como se a Providência, cansada de grandes feitos, se entretivesse agora com pequenas ironias.

Connors, esse eterno estrangeiro, não só de terras, mas de certezas, deixara-se cair sobre a neve como quem aceita, por um instante, a inutilidade de caminhar. Havia nele uma indiferença estudada, quase teatral, que ocultava mais do que revelava. Não era homem de confiar, nem de ser confiado.

Foi então que a viu.

Não como se vê uma mulher, mas como se reconhece um enigma.

Ela ali estava, envolta em peles e altivez, como uma dessas figuras que o frio não dobra, antes endurece. Havia no seu gesto uma elegância que não pertencia àquele lugar — e por isso mesmo denunciava mais do que qualquer palavra. Não era da estepe; era do mundo. E o mundo, como Connors bem sabia, é sempre mais perigoso que o deserto.

— Então, és a esposa de Halavy? — disse ele, com aquele meio sorriso que não pedia resposta, mas provocava uma.

Ela estremeceu — não de frio, mas de orgulho.

— Esposa? Eu? — e os seus olhos, que antes apenas observavam, passaram a ferir. — Não me insultes.

Ah! Como são rápidas as almas a defender aquilo que nunca aceitaram possuir… Connors reconheceu naquele ímpeto não a ofensa, mas a revelação. Aquela mulher não pertencia a ninguém e talvez fosse esse o seu maior perigo.

Ficaram assim, por um instante que poderia ter sido eterno: partilhando o mesmo espaço, o mesmo frio, mas não o mesmo mundo.

Entre eles, uma chávena de metal, pobre, vulgar, passava de mão em mão como um pacto silencioso. Não era hospitalidade; era reconhecimento. Cada um via no outro não um aliado, mas um igual e isso bastava.

Ao longe, o motor de um camião ressoava, lembrando-lhes que o mundo continuava, indiferente, como sempre, às pequenas tragédias e às discretas ironias dos encontros humanos.

E a estepe, essa velha testemunha, guardava mais um segredo: o de dois viajantes que, sem o saberem, haviam medido forças, não com armas, mas com palavras; não com gestos, mas com silêncios.

Porque há combates, meu amigo, que não deixam mortos, mas também não deixam vencedores.

 

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