









É extremamente interessante e revelador a evolução editorial e artística destas coleções populares de western em Portugal e Espanha.
Francisco Cueto estabeleceu para Bill, o Sorridente uma
identidade visual relativamente clássica: o herói errante, seguro, viril, pouco
vulnerável emocionalmente. As suas aventuras pertencem ao western tradicional
de aventura contínua, muito próximo dos cowboys íntegros da escola italiana e
espanhola dos anos 50. Mesmo quando havia romance, este era episódico,
decorativo, quase obrigatório, mas nunca transformador. Bill partia sempre
sozinho.
Ora, quando surge José Luis de la Fuente, nota-se
imediatamente outra sensibilidade narrativa.
De la Fuente tinha um desenho mais dramático, mais humano e
emocionalmente carregado. Os rostos têm fadiga, peso psicológico, melancolia.
As figuras femininas ganham presença real e não apenas ornamental. E sobretudo:
ele desenhava muito bem relações humanas. Não apenas tiroteios.
Por isso não é acaso que justamente nesta aventura apareça
Françoise.
A loira não entra apenas como “rapariga da história”; ela
funciona como ameaça simbólica ao próprio mito de Bill. O western clássico vive
da mobilidade: cavalo, horizonte, estrada. O herói não pode fixar-se sem
destruir o arquétipo. Quando um autor tenta aproximar o cowboy do amor, está
quase sempre a experimentar uma humanização moderna da personagem.
E José Luis de la Fuente parece fazer exatamente isso.
O “Virginiano” não é apenas um episódio de ação: é uma
história de herança moral e possibilidade de redenção. O velho militar-bandido
percebe que falhou como homem e como pai. Bill, pelo contrário, representa para
Françoise uma hipótese de futuro honrado. Daí o pedido final do moribundo ter
tanto peso dramático.
Mas repara no detalhe essencial: a promessa de Bill acontece
perante um morto iminente.
Isto é profundamente romântico no sentido clássico — quase
teatral. O herói promete porque está diante da tragédia, da emoção extrema, do
olhar suplicante de um homem vencido. Contudo, depois, regressa o silêncio das
pradarias. E aí começa o verdadeiro conflito.
Pode um herói popular como Bill casar?
Editorialmente, quase nunca.
Porque o cowboy casado deixa de poder ser errante. O
casamento mata parcialmente a fórmula serial. Um homem com esposa e casa deixa
de atravessar livremente fronteiras, saloons, guerras e emboscadas. Perde a
solidão mítica.
Talvez por isso esta aventura tenha um sabor tão singular
dentro da série. Parece quase uma experiência narrativa: “e se Bill pudesse
amar verdadeiramente?”
E é curioso que isso aconteça justamente com um desenhador
diferente do habitual. Muitas vezes, nestas séries populares, quando entrava
outro artista, entrava também outro tom emocional. O novo desenhador
aproveitava a personagem para explorar territórios que o titular raramente
tocava.
Françoise, aliás, encaixa num modelo muito típico do
romantismo western europeu: a mulher loira, delicada, sentimental, quase
civilizadora. Ela representa casa, estabilidade, ternura — tudo aquilo que o
Oeste brutal não consegue conservar.
Por isso o final fica suspenso numa pergunta melancólica:
Bill cumprirá a promessa?
Ou continuará condenado a cavalgar sozinho, levando consigo
apenas a memória de uma rapariga loira que, por breves dias, lhe fez acreditar
que poderia existir outra vida além das pradarias?
Antigo oficial de guerra, homem de disciplina severa e
inteligência fria, abandonara há anos o uniforme para comandar um bando
especializado em assaltos a carregamentos de armas. Os seus golpes eram
rápidos, calculados e quase militares; e muitos afirmavam que, se a fortuna lhe
tivesse sido favorável noutra época, teria chegado a general.
Foi durante a perseguição a um desses roubos que Bill, o
Sorridente, se cruzou pela primeira vez com Françoise.
A jovem vivia ignorando metade das atividades do pai, ou
fingindo ignorá-las, protegendo dentro de si uma esperança ingénua de que
ainda seria possível arrancá-lo à violência. Bill, habituado a saloons,
perseguições e solidão, descobriu nela algo que o perturbou profundamente: paz.
Mas os homens do Oeste raramente recebem o direito de mudar
de vida sem pagar preço elevado.
Quando um último assalto às armas “Springfield” termina em desastre, o bando é cercado nas montanhas. O Virginiano, mortalmente ferido, compreende enfim que passou toda a existência combatendo guerras inúteis. E no instante derradeiro, já sem orgulho nem autoridade, pede apenas uma coisa ao homem que aprendera a respeitar: que não abandone Françoise.
Bill, inclinado junto do velho moribundo, promete casar com
ela.
Porém, depois do enterro, quando as primeiras luzes da
madrugada se derramam sobre as pradarias silenciosas, a promessa começa a
pesar-lhe no coração como uma sentença.
Porque amar Françoise significaria deixar para trás a
estrada, o cavalo, o revólver e a liberdade amarga que sempre definiram a sua
existência.
E talvez haja homens destinados não a possuir um lar…
mas apenas a atravessá-lo por breves instantes, antes de desaparecer novamente no horizonte.
A povoação, pobre e perdida entre serras queimadas de sol,
vivia havia semanas sob o peso de um terror inexplicável. Um a um, antigos
fora-da-lei apareciam mortos em circunstâncias medonhas: uns encontrados junto
às ravinas, outros caídos nas cocheiras abandonadas, todos marcados pela mesma
violência fria e silenciosa.
O povo murmurava nomes ao cair da noite; fechavam-se portas
mais cedo; e até os cães pareciam uivar com diferente tristeza.
Bill, conhecido nas fronteiras por “o sorridente”, chegara
ali trazendo preso um bandido procurado havia anos. Entregou-o ao xerife com a
serenidade de quem acredita ainda na justiça dos homens.
Mas, na manhã seguinte, o prisioneiro apareceu morto dentro
da cela.
Foi então que a suspeita começou a espalhar-se como incêndio
em capim seco.
Havia naquela região um antigo rural, homem outrora temido
pela firmeza da sua pontaria e pela inflexível obediência à lei. Chamava-se Sanders.
Depois da morte da mulher, retirara-se para um pequeno rancho distante, vivendo
sozinho entre cavalos velhos, silêncio e recordações. O povo, que necessita
sempre de um rosto para os seus medos, começou a apontá-lo em segredo.
Porque os homens simples confundem facilmente solidão com
mistério.
Bill, contudo, não encontrou em Sanders o olhar febril de um
assassino, mas antes a melancolia resignada de quem conheceu demasiada
violência para continuar a acreditar nela. E foi precisamente o velho rural
quem primeiro desconfiou de um detalhe terrível: todas as vítimas tinham
participado, anos antes, no assalto durante o qual o filho do xerife fora
assassinado.
Subitamente, as mortes deixaram de parecer aleatórias.
O xerife, até então respeitado como homem justo e
silencioso, começava a revelar sombras inquietantes: o modo como evitava falar
do filho, a dureza excessiva com que tratava os prisioneiros, o estranho brilho
nos olhos quando mencionavam certos nomes.
Bill e Sanders unem-se então numa investigação amarga, feita
mais de silêncios do que de palavras, perseguindo não apenas um criminoso, mas
a lenta ruína moral de um homem consumido pela dor.
E quando a verdade enfim se ergue diante deles, terrível e
nua, compreendem ambos que não existe desgraça maior do que esta:
um homem encarregado de fazer justiça acreditar possuir o direito de substituir Deus.
Johnny Galaxia, nome que ressoa como promessa e como
destino. Quem é ele, senão esse cavaleiro moderno que trocou o cavalo pelo
vácuo infinito, e a espada pelo engenho frio das armas de um tempo sem
fronteiras? Vede-o, firme sobre o solo estranho, olhando ao longe aquele
castelo impossível, erguido como desafio à razão e à coragem. Que força o
chama? Que mistério o prende?
Ah! quantas vezes o homem, na sua ânsia de ultrapassar
limites, se lança por caminhos donde não há regresso! E, contudo, é nesse risco,
nesse abismo entre o querer e o poder, que reside a grandeza. Não será o tal
castelo, suspenso entre a lua e o silêncio, uma metáfora dessas ambições que
nos elevam e nos perdem?
Segue, pois, esta aventura, leitor amigo, não como quem busca mero entretenimento, mas como quem se aproxima de um espelho distante. Porque, entre estrelas e sombras, talvez reconheças, disfarçado de herói, o próprio espírito humano, inquieto, indomável, eternamente dividido entre o impulso de avançar… e o pressentimento de nunca mais regressar.
E eis que o destino, esse inexorável tecelão de encontros e
desgraças, o lança no encalço de um povo perseguido, os Cheyennes, cuja sina
parece já escrita não pelos deuses, mas pela cobiça dos homens que se dizem
civilizados.
Vê-se então Sam no meio de uma marcha dolorosa, onde não há
repouso nem certeza, apenas o estertor da fuga e o pressentimento da tragédia.
De um lado, os soldados da União e os interesses dos brancos que reclamam a
terra como quem reclama ouro; do outro, os filhos das planícies, expulsos do
seu próprio destino, condenados a errar como sombras sobre a relva infinita.
E no coração desta tormenta, o jovem herói não empunha a
violência como bandeira, antes se ergue como ponte frágil entre mundos que não
se entendem. Procura ele mitigar o choque dos homens, conter a fúria do
destino, e impedir que o sangue regue mais uma vez a poeira do deserto.
Mas que pode um só homem contra a marcha pesada da História?
Ainda assim persiste, pois há em si essa nobre teimosia dos que acreditam que a
justiça, ainda que tardia, não é sonho vão.
E assim se desenrola a jornada: cavalgadas sob o sol
impiedoso, encontros prenhes de tensão, silêncios mais eloquentes que
discursos, e sempre, sempre, a sombra da perda a pairar sobre os que fogem e os
que perseguem.
Nota: como podem notar esta capa da Colecção Águia está incorreta.
A história afasta-se do tom habitual de exploração espacial
e assume um tom mais misterioso na Terra.
Laureline encontra-se na Escócia, no Castelo de Inverloch, a
reunir vários aliados e especialistas.
Valérian está noutra época e local a tentar detetar uma
anomalia espácio-temporal que ameaça a continuidade da Galaxity (o império
humano do futuro).
Forças misteriosas começam a sabotar e a assombrar a
realidade, preparando o palco para o confronto com os falsos deuses de Hypsis.
E, por agora, só sabemos isto…