Foi no caminho, esse grande livro aberto onde o destino
escreve sem pedir licença, que encontrou o rapaz. Tinha dez anos, olhos de quem
já vira demais e mãos vazias de futuro. Não trazia nome que pesasse, nem
memória que o prendesse. Mannering olhou-o uma vez, como quem mede um terreno;
à segunda, como quem o aceita.
— Vens comigo.
E assim nasceu, não uma caridade, mas uma família.
Chamava-se Lancer. Nome breve, como se fosse ainda
provisório, à espera de crescer com o homem que viria a ser. Sob a tutela rude
e silenciosa de Mannering, aprendeu o que não se ensina em livros: a ler o céu
antes da tempestade, a escutar o chão antes do perigo, a desconfiar do homem
antes de confiar no acaso. Treze anos correram, não como tempo, mas como forja,
e deles saiu feito homem, inteiro e duro, como o ferro batido na bigorna do
Oeste indomável.
Durante esse longo intervalo, nenhuma mulher cruzara o
limiar da vida de Mannering. Não por falta delas, talvez, mas por excesso de
propósito. Todo o seu afeto, se é que tal palavra cabia nele, fora gasto
naquele rapaz que escolhera para filho.
Mas o destino, que tudo dá para depois cobrar, trouxe-a.
Chamava-se Sherry.
E não chegou como chegam as coisas simples. Chegou como
chegam as perturbações: leve no gesto, ambígua no olhar, perigosa na inocência
fingida. Não escolheu, insinuou-se. Não declarou, provocou. E, como se
brincasse com dois destinos, namoriscou ambos, pai e filho, sem jamais parecer
pertencer a nenhum.
Mannering, que enfrentara homens e desertos sem tremer,
rendeu-se. Não com a dignidade de quem ama, mas com a vertigem de quem se
perde. Amou-a como um louco e talvez fosse isso mesmo que nele despertara: uma
loucura adormecida, antiga como o seu silêncio.
Lancer, por seu turno, não era menos homem por ter sido
feito à imagem do outro. Onde o mestre caía, o discípulo não recuava. E assim,
sem palavras que resolvessem, sem leis que acudissem, ficaram os dois diante de
um abismo que só podia ter uma saída.
Matar-se-iam.
E ela?
Ah, ela não escolheria antes do tempo, porque as mulheres
como Sherry não escolhem, aguardam. Ficaria com o que restasse. Com o
sobrevivente, não por amor, mas por continuidade.
Porque, no fim, nada perderia.
É mulher. E, nesse jogo antigo onde os homens apostam a
vida, ela é sempre quem recolhe as fichas.
E foi àquele local que chegou Montana Blue…


































