Dizem-nos que era pistoleiro. E basta olhar para ele para
perceber que não era dos de lenda fácil, desses que o romance pinta com bravura
leve e sorriso pronto. Não, este traz o cansaço inscrito nas costas, a morte
insinuada no gesto, e talvez, quem sabe, um resto de humanidade que nem as
balas conseguiram expulsar.
Chegou ao Rancho Felicidade com chumbo no corpo. Que ironia,
leitor atento: a felicidade, esse nome tão cheio, a acolher um homem esvaziado
pela violência. E, contudo, acolheram-no. Eis o ponto que merece detença, não
a sua fama, não os seus feitos, mas o gesto daqueles que, contra a lógica do
Oeste e das suas leis secas, decidiram cuidar.
Dir-me-á o leitor e com razão: “Mas que redenção pode
haver num homem assim?” E eu respondo-lhe, à maneira dos velhos mestres: talvez
nenhuma. Ou talvez toda. Porque há vidas que não se salvam por inteiro, mas que
encontram, no derradeiro instante, uma razão que as justifique.
Caiu em combate, dizem. Não por ouro, não por glória, mas
para garantir a felicidade dos seus amigos. Eis o verdadeiro desvio do destino:
o homem que viveu pela arma, morre por algo que não se pode disparar, a
felicidade alheia.
E aqui, permitam-me um breve desvio, como faria um professor
diante dos seus alunos mais inquietos: que força é esta que leva um homem,
moldado pela violência, a escolher, no fim, o sacrifício? Será remorso? Será
afeição? Ou será apenas o último capricho de uma consciência que, afinal, nunca
esteve completamente morta?
A imagem não responde. Limita-se a sugerir. E talvez seja
esse o seu maior mérito.
Assim, entre o pó do caminho e a sombra da caverna, fica-nos
a figura desse pistoleiro, não como herói, nem como vilão, mas como homem. E,
como todos os homens, contraditório, imperfeito, e capaz, no instante final, de
surpreender o próprio destino.
Porque, no fim, meu caro leitor, a felicidade, mesmo a de um rancho perdido, constrói-se, não raras vezes, sobre os ombros cansados daqueles que já pouco esperam dela.

















































