quinta-feira, 27 de agosto de 2026

BD1943. Colecção Ciclone, 79. A queda de Jim Sanders

Em St. António, o respeitado Jin Sanders cruza-se com Mamie Loren, a fascinante cantora do “Golden Day”. Bela e misteriosa, Mamie mantém ligações secretas a um perigoso bando de criminosos e acaba por atrair Sanders para o seu círculo.

Ninguém sabe ao certo em que momento o pistoleiro começou verdadeiramente a mudar. Seduzido pela cantora, e talvez pelo fascínio da vida fora da lei, Sanders junta-se aos bandidos e participa mesmo em assaltos violentos. Num deles, compromete-se definitivamente perante o grupo ao arriscar tudo para provar a Mamie que merece o seu amor e a confiança do bando.

Os antigos companheiros observam-no com espanto, sem compreender se assistem a uma traição ou a um jogo perigoso. Contudo, Sanders continua dividido entre duas vidas: a do homem honrado que foi e a do proscrito em que lentamente se transforma.

À medida que cresce a violência entre os criminosos, algo muda dentro dele. Seja por arrependimento, ciúme, desilusão ou por um plano secreto amadurecido no silêncio, Jin Sanders acaba por voltar-se contra os próprios bandidos e desfaz a quadrilha por dentro.

No fim, o bando cai. Mas permanece o mistério essencial: Jin Sanders entrou entre os criminosos já decidido a destruí-los… ou só percebeu demasiado tarde que estava a tornar-se um deles? E quanto a Mamie Loren, ficou entre ambos amor verdadeiro ou apenas manipulação e desejo?

 

sábado, 22 de agosto de 2026

BD1942. Clarke & Kubrick em "O senhor do mundo"

 

."O Senhor do Mundo" (ou El Amo del Mundo) é um dos episódios mais célebres das peripécias de Clarke e Kubrick, as "estrelas" da picaresca galáctica de Alfonso Font.
E eis um magnífico exemplar de patifaria sideral nos chegou às mãos naquela década de noventa! Encontramos os nossos dois astronautas, sujeitos de uma humanidade tão rasteira que chega a ser comovente, no álbum "O Senhor do Mundo".
A intriga é de um ridículo sublime: Clarke e Kubrick, esses dois mercenários do vácuo, vêem-se envolvidos nas malhas de um tirano de opereta que, do alto da sua megalomania tecnológica, aspira a governar o universo como se fosse uma modesta mercearia de província. É a sátira perfeita à soberba dos poderosos, desenhada com aquele traço de Font que faz parecer que as naves espaciais foram remendadas com arame e boa vontade.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

BD1941. Colecção Ciclone, 79. Através das reservas

 

Nos confins poeirentos do Colorado, uma caravana de colonos atravessa território indígena sob escolta de um pequeno destacamento de batedores texanos. Oficialmente, transportam mantimentos, ferramentas e famílias em busca de novas terras. Mas entre as carroças segue um veículo fechado, guardado com excessivo cuidado por homens armados e silenciosos.

O guia da expedição, antigo explorador da fronteira, percebe cedo que algo está errado. Os ataques indígenas tornaram-se estranhamente coordenados, como se alguém soubesse exatamente o percurso da caravana. Além disso, certos homens parecem mais nervosos com inspeções do que com os próprios comanches.

A verdade revela-se aos poucos: um comerciante sem escrúpulos esconde no interior da carroça dezenas de rifles e caixas de munições destinadas aos indígenas. Pretende vendê-las secretamente a uma facção guerreira que se prepara para lançar um grande ataque contra fortes e povoações da região. Para ele, a guerra é apenas negócio.

Os índios não surgem apenas como “ameaça selvagem”, como em muitos westerns antigos; há aqui traficantes, oportunistas e interesses económicos brancos a alimentar o conflito. A fronteira deixa de ser um combate simples entre “civilização” e “barbárie”: torna-se um território onde a ganância humana fabrica a violência que depois finge combater.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Uma noiva para Bill, o Sorridente

É extremamente interessante e revelador a evolução editorial e artística destas coleções populares de western em Portugal e Espanha.

Francisco Cueto estabeleceu para Bill, o Sorridente uma identidade visual relativamente clássica: o herói errante, seguro, viril, pouco vulnerável emocionalmente. As suas aventuras pertencem ao western tradicional de aventura contínua, muito próximo dos cowboys íntegros da escola italiana e espanhola dos anos 50. Mesmo quando havia romance, este era episódico, decorativo, quase obrigatório, mas nunca transformador. Bill partia sempre sozinho.

Ora, quando surge José Luis de la Fuente, nota-se imediatamente outra sensibilidade narrativa.

De la Fuente tinha um desenho mais dramático, mais humano e emocionalmente carregado. Os rostos têm fadiga, peso psicológico, melancolia. As figuras femininas ganham presença real e não apenas ornamental. E sobretudo: ele desenhava muito bem relações humanas. Não apenas tiroteios.

Por isso não é acaso que justamente nesta aventura apareça Françoise.

A loira não entra apenas como “rapariga da história”; ela funciona como ameaça simbólica ao próprio mito de Bill. O western clássico vive da mobilidade: cavalo, horizonte, estrada. O herói não pode fixar-se sem destruir o arquétipo. Quando um autor tenta aproximar o cowboy do amor, está quase sempre a experimentar uma humanização moderna da personagem.

E José Luis de la Fuente parece fazer exatamente isso.

O “Virginiano” não é apenas um episódio de ação: é uma história de herança moral e possibilidade de redenção. O velho militar-bandido percebe que falhou como homem e como pai. Bill, pelo contrário, representa para Françoise uma hipótese de futuro honrado. Daí o pedido final do moribundo ter tanto peso dramático.

Mas repara no detalhe essencial: a promessa de Bill acontece perante um morto iminente.

Isto é profundamente romântico no sentido clássico — quase teatral. O herói promete porque está diante da tragédia, da emoção extrema, do olhar suplicante de um homem vencido. Contudo, depois, regressa o silêncio das pradarias. E aí começa o verdadeiro conflito.

Pode um herói popular como Bill casar?

Editorialmente, quase nunca.

Porque o cowboy casado deixa de poder ser errante. O casamento mata parcialmente a fórmula serial. Um homem com esposa e casa deixa de atravessar livremente fronteiras, saloons, guerras e emboscadas. Perde a solidão mítica.

Talvez por isso esta aventura tenha um sabor tão singular dentro da série. Parece quase uma experiência narrativa: “e se Bill pudesse amar verdadeiramente?”

E é curioso que isso aconteça justamente com um desenhador diferente do habitual. Muitas vezes, nestas séries populares, quando entrava outro artista, entrava também outro tom emocional. O novo desenhador aproveitava a personagem para explorar territórios que o titular raramente tocava.

Françoise, aliás, encaixa num modelo muito típico do romantismo western europeu: a mulher loira, delicada, sentimental, quase civilizadora. Ela representa casa, estabilidade, ternura — tudo aquilo que o Oeste brutal não consegue conservar.

Por isso o final fica suspenso numa pergunta melancólica:

Bill cumprirá a promessa?

Ou continuará condenado a cavalgar sozinho, levando consigo apenas a memória de uma rapariga loira que, por breves dias, lhe fez acreditar que poderia existir outra vida além das pradarias?

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

BD1939. Colecção Ciclone, 79. Bill, o sorridente em "O Virginiano"

Nas fronteiras poeirentas entre o México e o território americano, um nome começava novamente a espalhar inquietação entre caravanas militares e pequenas povoações do deserto: o Virginiano.

Antigo oficial de guerra, homem de disciplina severa e inteligência fria, abandonara há anos o uniforme para comandar um bando especializado em assaltos a carregamentos de armas. Os seus golpes eram rápidos, calculados e quase militares; e muitos afirmavam que, se a fortuna lhe tivesse sido favorável noutra época, teria chegado a general.

Foi durante a perseguição a um desses roubos que Bill, o Sorridente, se cruzou pela primeira vez com Françoise.

A jovem vivia ignorando metade das atividades do pai, ou fingindo ignorá-las, protegendo dentro de si uma esperança ingénua de que ainda seria possível arrancá-lo à violência. Bill, habituado a saloons, perseguições e solidão, descobriu nela algo que o perturbou profundamente: paz.

Mas os homens do Oeste raramente recebem o direito de mudar de vida sem pagar preço elevado.

Quando um último assalto às armas “Springfield” termina em desastre, o bando é cercado nas montanhas. O Virginiano, mortalmente ferido, compreende enfim que passou toda a existência combatendo guerras inúteis. E no instante derradeiro, já sem orgulho nem autoridade, pede apenas uma coisa ao homem que aprendera a respeitar: que não abandone Françoise.

Bill, inclinado junto do velho moribundo, promete casar com ela.

Porém, depois do enterro, quando as primeiras luzes da madrugada se derramam sobre as pradarias silenciosas, a promessa começa a pesar-lhe no coração como uma sentença.

Porque amar Françoise significaria deixar para trás a estrada, o cavalo, o revólver e a liberdade amarga que sempre definiram a sua existência.

E talvez haja homens destinados não a possuir um lar…

mas apenas a atravessá-lo por breves instantes, antes de desaparecer novamente no horizonte.

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