Connors, esse eterno estrangeiro, não só de terras, mas de
certezas, deixara-se cair sobre a neve como quem aceita, por um instante, a
inutilidade de caminhar. Havia nele uma indiferença estudada, quase teatral,
que ocultava mais do que revelava. Não era homem de confiar, nem de ser
confiado.
Foi então que a viu.
Não como se vê uma mulher, mas como se reconhece um enigma.
Ela ali estava, envolta em peles e altivez, como uma dessas
figuras que o frio não dobra, antes endurece. Havia no seu gesto uma elegância
que não pertencia àquele lugar — e por isso mesmo denunciava mais do que
qualquer palavra. Não era da estepe; era do mundo. E o mundo, como Connors bem
sabia, é sempre mais perigoso que o deserto.
— Então, és a esposa de Halavy? — disse ele, com aquele meio
sorriso que não pedia resposta, mas provocava uma.
Ela estremeceu — não de frio, mas de orgulho.
— Esposa? Eu? — e os seus olhos, que antes apenas
observavam, passaram a ferir. — Não me insultes.
Ah! Como são rápidas as almas a defender aquilo que nunca
aceitaram possuir… Connors reconheceu naquele ímpeto não a ofensa, mas a
revelação. Aquela mulher não pertencia a ninguém e talvez fosse esse o seu
maior perigo.
Ficaram assim, por um instante que poderia ter sido eterno:
partilhando o mesmo espaço, o mesmo frio, mas não o mesmo mundo.
Entre eles, uma chávena de metal, pobre, vulgar, passava de
mão em mão como um pacto silencioso. Não era hospitalidade; era reconhecimento.
Cada um via no outro não um aliado, mas um igual e isso bastava.
Ao longe, o motor de um camião ressoava, lembrando-lhes que
o mundo continuava, indiferente, como sempre, às pequenas tragédias e às
discretas ironias dos encontros humanos.
E a estepe, essa velha testemunha, guardava mais um segredo:
o de dois viajantes que, sem o saberem, haviam medido forças, não com armas,
mas com palavras; não com gestos, mas com silêncios.
Porque há combates, meu amigo, que não deixam mortos, mas também não deixam vencedores.


































