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terça-feira, 23 de junho de 2026

BD1919. Kozakovich & Connors. Uma noite de chuva de oiro

Era noite, dessas noites que não pertencem ao tempo, mas ao silêncio. A estepe estendia-se infinita, branca e muda, como um pensamento que ninguém ousa concluir. E ali, naquele recorte de mundo esquecido, dois destinos cruzavam-se sem aviso, como se a Providência, cansada de grandes feitos, se entretivesse agora com pequenas ironias.

Connors, esse eterno estrangeiro, não só de terras, mas de certezas, deixara-se cair sobre a neve como quem aceita, por um instante, a inutilidade de caminhar. Havia nele uma indiferença estudada, quase teatral, que ocultava mais do que revelava. Não era homem de confiar, nem de ser confiado.

Foi então que a viu.

Não como se vê uma mulher, mas como se reconhece um enigma.

Ela ali estava, envolta em peles e altivez, como uma dessas figuras que o frio não dobra, antes endurece. Havia no seu gesto uma elegância que não pertencia àquele lugar — e por isso mesmo denunciava mais do que qualquer palavra. Não era da estepe; era do mundo. E o mundo, como Connors bem sabia, é sempre mais perigoso que o deserto.

— Então, és a esposa de Halavy? — disse ele, com aquele meio sorriso que não pedia resposta, mas provocava uma.

Ela estremeceu — não de frio, mas de orgulho.

— Esposa? Eu? — e os seus olhos, que antes apenas observavam, passaram a ferir. — Não me insultes.

Ah! Como são rápidas as almas a defender aquilo que nunca aceitaram possuir… Connors reconheceu naquele ímpeto não a ofensa, mas a revelação. Aquela mulher não pertencia a ninguém e talvez fosse esse o seu maior perigo.

Ficaram assim, por um instante que poderia ter sido eterno: partilhando o mesmo espaço, o mesmo frio, mas não o mesmo mundo.

Entre eles, uma chávena de metal, pobre, vulgar, passava de mão em mão como um pacto silencioso. Não era hospitalidade; era reconhecimento. Cada um via no outro não um aliado, mas um igual e isso bastava.

Ao longe, o motor de um camião ressoava, lembrando-lhes que o mundo continuava, indiferente, como sempre, às pequenas tragédias e às discretas ironias dos encontros humanos.

E a estepe, essa velha testemunha, guardava mais um segredo: o de dois viajantes que, sem o saberem, haviam medido forças, não com armas, mas com palavras; não com gestos, mas com silêncios.

Porque há combates, meu amigo, que não deixam mortos, mas também não deixam vencedores.

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

BD1916. Kozakovich & Connors. O destino e o almirante Kolchak

Ah, se a História falasse com a limpidez de um quadro — mas não: ela balbucia, hesita, contradiz-se. E é nesse intervalo entre o facto e a representação que surge a figura trágica de Alexander Kolchak, não já como o herói altivo da imagem, mas como um homem apanhado na rede inexorável dos acontecimentos. 
A verdade histórica, nua e sem ornamento: 
A captura de Kolchak não se deu num instante teatral de confronto direto entre baionetas e honra. Foi, antes, um lento desmoronar. Em janeiro de 1920, já no ocaso da Russian Civil War, Kolchak encontrava-se em retirada pela Sibéria, abandonado por aliados, traído por circunstâncias e, mais decisivo ainda, pela fadiga de um povo exausto. 
Em Irkoutsk, o poder local já não lhe obedecia. O chamado “Centro Político”, uma entidade revolucionária de transição, assumira o controlo da cidade. E eis o ponto crucial: Kolchak não foi capturado em combate, mas entregue. Entregue pelos próprios aliados, nomeadamente pelas forças da Czechoslovak Legion, que, desejosas de regressar à sua pátria, preferiram negociar a sua saída segura em troca do prisioneiro ilustre. 
Não houve glória no gesto, nem estrondo de armas. Houve cálculo. Pouco depois, já sob custódia bolchevique, Kolchak seria interrogado e, em fevereiro de 1920, executado sumariamente, sem o aparato de um julgamento digno desse nome. 
E agora, a imagem, esse teatro imóvel: A ilustração que observamos compõe-se como um drama condensado. Tudo nela clama por um momento decisivo: o olhar fixo, as baionetas erguidas, a mulher em sobressalto, como se a História, caprichosa, tivesse escolhido aquele segundo para revelar a sua face. Mas aqui reside a ilusão, tão cara ao espírito romântico: 
• A imagem acerta ao captar a dignidade austera de Kolchak, esse homem que, mesmo derrotado, não se desfaz imediatamente em ruína moral. 
• Acerta também na sensação de inevitabilidade, no cerco humano que simboliza a pressão histórica que o esmagava. Contudo, dramatiza e como! 
• Transforma uma entrega política em confronto físico. Não houve esse momento de desafio frontal; houve antes uma transação, quase burocrática, onde a vida de um homem pesou menos que a logística de um comboio. 
• Personaliza o conflito, quando na realidade ele era difuso, fragmentado, sem rosto, exatamente o contrário desta composição tão nítida e teatral. 
• E essa mulher, ah, essa mulher!, não pertence ao registo da História, mas ao da consciência. Ela é o público, somos nós, convocados a sentir o que os documentos não registam. 
Em suma: A imagem não mente, mas também não diz a verdade. Faz algo mais perigoso e mais belo: interpreta. Onde a História oferece um fim frio, quase administrativo, a arte ergue um instante de tragédia. Onde houve entrega, ela cria resistência; onde houve cálculo, inventa honra; onde houve silêncio, faz ecoar o drama. E talvez, no fundo, seja isso que procuramos: não o que foi, mas o que deveria ter sido para satisfazer a nossa fome de sentido.

terça-feira, 9 de junho de 2026

BD1913. Kozakovich & Connors. A consciência dos homens

Kozakovich e Connors partem para Irkoutsk acompanhados por um homem que julgam ser um jornalista australiano e por uma jovem japonesa. A sua missão é entregar financiamento ao responsável pelo exército dos Brancos, Kolchak. Mas o caminho traz-lhes uma surpresa inesperada e o grupo acaba por ficar mais reduzido. O vil metal estraga tudo, mesmo a consciência dos homens.

terça-feira, 28 de abril de 2026

BD1894. Kozakovich & Connors em "Dois resgates"

A experiência de Connors vai ser aproveitada pelos japoneses para recolher uma sua agente infiltrada entre os Vermelhos. E o que se tratava de uma missão militar acabou por se transformar em dois resgates...

terça-feira, 21 de abril de 2026

BD1891. Kozakovich & Connors em "Os Buriates"

Após a saída de OMSK em avião, Mike Kozakovich, Connors e a Condessa chegam às terras dos Buriates onde se destaca o sanguinário Semenov. São bem acolhidos, mas algo move a boa vontade dos que povoam aquelas terras para quem os massacres e a pilhagem constituíam o objetivo principal.

terça-feira, 14 de abril de 2026

BD1888. Kozakovich & Coonors em "OMSK"

Esta é a primeira parte do volume oito das aventuras de Kozakovich & Connors que tem o título "A condessa". Eles chegam à cidade de OMSK que está pejada de fugitivos aos Vermelhos e onde até se alugam estábulos para pessoas pernoitarem. Uma mulher formosa está em vias de ser despejada de um hotel, mas Connors acaba por simpatizar com a sua atitude de resistência ao assédio de um idiota que fazia fortuna com a guerra o que foi o suficiente para Kozakovich encontrar forma de a formosa criatura permanecer naquele espaço...

terça-feira, 7 de abril de 2026

BD1885. Dago. Em busca do rei. 6_A fuga do renegado

Nem sempre as ações mais audazes têm sucesso. Enviado pela rainha mãe para libertar o rei de França, Francisco I, prisioneiro do imperador de Espanha,Carlos V, Dago, servindo-se da ajuda dum velho cigano, Bastiano, foi descoberto e feito prisioneiro em Madrid. 
Mas a chegada da irmão do rei Francisco a Madrid produziu significativa modificação. Em pouco tempo, Bastiano chegou junto dela e, enquanto o rei Francisco fingia aceitar as condições para ser libertado, o cigano urdia um plano para libertar Dago.

terça-feira, 31 de março de 2026

BD1882. Dago. Em busca do rei. 5_Prisioneiro em Alcazar

Finalmente, Dago e o cigano Bastiano chegaram a Madrid. O renegado não tardou a tomar conhecimento com um árabe que estava a servir o rei Francisco em Alcazar e logo organizou um plano de fuga à custa de uma promessa de regresso do negro à sua terra em Argel. 
Mas algo correu mal… e só o negro conseguiu escapar…

terça-feira, 24 de março de 2026

BD1879. Dago. Em busca do rei. 4_A queda

Sabiam que, depois de San Louis, os reis de França tinham o poder de curar certas enfermidades com o simples tocar com as mãos os enfermos. Isto fez com que muitos fossem esperar o rei Francisco quando este, prisioneiro de Carlos V, rei de Espanha, desembarcou em Barcelona… e morressem esmagados pela multidão. 
Mas isso não terá sido suficiente para um fidalgo meio louco que se julgava um cavaleiro antigo e tinha a mania de perseguir as donzelas para as libertar das trevas. Morreu de queda de cavalo…

terça-feira, 17 de março de 2026

BD1876. Dago. Em busca do rei. 3_O guardião da bolsa de ouro

Havia um estranho costume naquela comarca: o barão organizava regularmente um torneio que punha à prova um voluntário que deveria recolher uma bolsa de ouro guardada por um touro bravo. 
Um jovem camponês que cortejava uma dama bem acomodada na vida tentou iludir o bravo animal para poder demonstrar o seu poderio económico perante a formosa mulher. Mas esta tinha algo diferente em mente...

terça-feira, 10 de março de 2026

BD1873. Dago. Em busca do rei. 2_O homem da águia

Dago continua a sua jornada em busca do rei e depara com uma aldeia chacinada pelo Homem da Águia e seus sequazes. Um idoso a quem arrancaram os olhos conta-lhe o que se passou e chora pela sua filha, uma formosa menina. Dago parte em busca dela...

terça-feira, 3 de março de 2026

BD1870. Dago. Em busca do rei. 1_Reencontros

O rei Francisco I é prisioneiro do rei Carlos de Espanha que existe pesadas condições para a sua libertação. Dago é sondado pela regente, mãe do rei, para descobrir o seu paradeiro e trazê-lo de volta. 
Após o seu recente encontro com ”Muerte” que atravessou toda a Europa para o reencontrar e com Margarida de Angouleme, Dago predispôs-se a percorrer de novo os caminhos incertos que o levariam a uma perigosa missão.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

BD1868. Kozakovich & Connors em "A extensão morta da estepe"

Tudo não é nada senão neve. Uma não-realidade de perfeição absoluta e assustadora… O manto perfeito da morte… 
E desta brancura emergem pequenas criatura, formigas meio esmagadas… homens! 
E, entre eles, Kozakovich e Connors… que vão viver uma história intensa onde Vermelhos e Brancos se digladiam sem piedade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

BD1865. Kozakovich & Connors em "O coelho do terror"

Os dois homens caminham sobre a neve cada vez mais forte e Connors quase atinge a loucura. Num último instante, um som provém de algo distante, depois, aparece uma construção iluminada. 
 O que encontram lá dentro não deixa de ser assustador. Um homem, um grande produtor teatral, rodeado de cadáveres. Uma estranha história se começa a desenhar a partir daqui envolvendo mulheres, cossacos e um tesouro… 
E, numa estranha despedida, o produtor teatral não conseguiu mostrar o coelho escondido no chapéu, caindo sobre o gelo…

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

BD1862. Kozakovich & Connors em "O comboio da fome"

O comboio para Vladivostok carregado com caixões dourados e os corpos dos familiares do principe chegou ao uma aldeia onde parou para reabastecimento de carvão e víveres. Mas a aldeia tinha sido atacada pelos Vermelhos que levaram tudo. Encontraram algum carvão, mas nada de comida… 
A viagem prosseguiu e nova dificuldade se levantou: uma tempestade de neve bloqueou a via e o comboio teve de parar. Começaram então a escassear os alimentos. Os cossacos que protegiam o príncipe abandonaram e voltaram para trás. O príncipe assou o falcão e preparou-se para a última refeição agarrado aos caixões de ouro. Koozakovich e Connors prosseguiram a pé para Vladivostok. Mas o Pacífico estava tão longe…

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

BD1861. Muerte_6. A dama de Angouleme

E “Muerte” pode finalmente repousar junto à amante do seu amo, a adúltera, a doce, a bondosa Margarida de Angoulême…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

BD1859. Kozakovich & Connors em "Reencontros"

Coonors acabou por chegar com o seu destacamento a Arkhangelsk. É o momento de despedida dos seus homens que anseiam por voltar a casa com o produto dos saques. 
Acabou por se reencontrar com Kozakovich e, a partir dali, o desejo dos dois homens era abandonar aquela guerra. À falta de melhor decidiram aceitar a proposta de viajar como vigilantes num comboio com destino a Vladivostok sob as ordens de um príncipe que mais parecia um louco e na companhia de tenebrosas figuras. 
Em breve a sua curiosidade veio ao de cima: que transportaria de importante aquele comboio para uma vigilância tão apertada?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

BD1858. Presença incómoda

 

A epidemia devastou uma comunidade e um grupo de estrangeiros foi considerado culpado. A soldadesca do barão Rackoscy atacou-os. Atrás veio gente do povo… 
Toda família de Miriam foi morta. Arrancaram os olhos ao avô, a aldeia foi queimada. Só ela sobreviveu. Pôde esconder-se e ver o massacre sem que a encontrassem. 
Quando a loucura terminou, veio a vingança. A presença recordava-lhes o terror. Recordava-lhes o seu crime… e ela não queria que o esquecessem…essa a sua missão de vida… 
E um dia “Muerte” chegou ali…

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

BD1856. Muerte_4. O mendigo chegou pelo ar

Desde menino, ele era o mendigo da cidade. E um dia, quando a peste ali chegou, decidiu devolver as esmolas que recebera com uma dádiva inesquecível, fazendo-se catapultar para o castelo onde o barão se fechara e guardava provisões e medicação e desencadeando a sua abertura. 
“Muerte” foi o único ser de confiança que o ajudou…

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

BD1853. Muerte_3A. Uma condessa ingénua

A ingenuidade da condessa de Osterny e a crueldade do seu primo fizeram com que a crueldade e pesados tributos se abatessem sobre os camponeses. 
Uma família é expulsa das suas terras e um homem é morto. Em fuga refugiaram-se numa gruta onde acaba por chegar a ingénua condessa em fuga ao primo que pretende apoderar-se dos sues domínios. 
Mas “Muerte” também anda por perto na eterna pesquisa do seu amo, Dago…

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