sábado, 15 de agosto de 2026
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Uma noiva para Bill, o Sorridente
É extremamente interessante e revelador a evolução editorial e artística destas coleções populares de western em Portugal e Espanha.
Francisco Cueto estabeleceu para Bill, o Sorridente uma
identidade visual relativamente clássica: o herói errante, seguro, viril, pouco
vulnerável emocionalmente. As suas aventuras pertencem ao western tradicional
de aventura contínua, muito próximo dos cowboys íntegros da escola italiana e
espanhola dos anos 50. Mesmo quando havia romance, este era episódico,
decorativo, quase obrigatório, mas nunca transformador. Bill partia sempre
sozinho.
Ora, quando surge José Luis de la Fuente, nota-se
imediatamente outra sensibilidade narrativa.
De la Fuente tinha um desenho mais dramático, mais humano e
emocionalmente carregado. Os rostos têm fadiga, peso psicológico, melancolia.
As figuras femininas ganham presença real e não apenas ornamental. E sobretudo:
ele desenhava muito bem relações humanas. Não apenas tiroteios.
Por isso não é acaso que justamente nesta aventura apareça
Françoise.
A loira não entra apenas como “rapariga da história”; ela
funciona como ameaça simbólica ao próprio mito de Bill. O western clássico vive
da mobilidade: cavalo, horizonte, estrada. O herói não pode fixar-se sem
destruir o arquétipo. Quando um autor tenta aproximar o cowboy do amor, está
quase sempre a experimentar uma humanização moderna da personagem.
E José Luis de la Fuente parece fazer exatamente isso.
O “Virginiano” não é apenas um episódio de ação: é uma
história de herança moral e possibilidade de redenção. O velho militar-bandido
percebe que falhou como homem e como pai. Bill, pelo contrário, representa para
Françoise uma hipótese de futuro honrado. Daí o pedido final do moribundo ter
tanto peso dramático.
Mas repara no detalhe essencial: a promessa de Bill acontece
perante um morto iminente.
Isto é profundamente romântico no sentido clássico — quase
teatral. O herói promete porque está diante da tragédia, da emoção extrema, do
olhar suplicante de um homem vencido. Contudo, depois, regressa o silêncio das
pradarias. E aí começa o verdadeiro conflito.
Pode um herói popular como Bill casar?
Editorialmente, quase nunca.
Porque o cowboy casado deixa de poder ser errante. O
casamento mata parcialmente a fórmula serial. Um homem com esposa e casa deixa
de atravessar livremente fronteiras, saloons, guerras e emboscadas. Perde a
solidão mítica.
Talvez por isso esta aventura tenha um sabor tão singular
dentro da série. Parece quase uma experiência narrativa: “e se Bill pudesse
amar verdadeiramente?”
E é curioso que isso aconteça justamente com um desenhador
diferente do habitual. Muitas vezes, nestas séries populares, quando entrava
outro artista, entrava também outro tom emocional. O novo desenhador
aproveitava a personagem para explorar territórios que o titular raramente
tocava.
Françoise, aliás, encaixa num modelo muito típico do
romantismo western europeu: a mulher loira, delicada, sentimental, quase
civilizadora. Ela representa casa, estabilidade, ternura — tudo aquilo que o
Oeste brutal não consegue conservar.
Por isso o final fica suspenso numa pergunta melancólica:
Bill cumprirá a promessa?
Ou continuará condenado a cavalgar sozinho, levando consigo
apenas a memória de uma rapariga loira que, por breves dias, lhe fez acreditar
que poderia existir outra vida além das pradarias?
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
BD1939. Colecção Ciclone, 79. Bill, o sorridente em "O Virginiano"
Antigo oficial de guerra, homem de disciplina severa e
inteligência fria, abandonara há anos o uniforme para comandar um bando
especializado em assaltos a carregamentos de armas. Os seus golpes eram
rápidos, calculados e quase militares; e muitos afirmavam que, se a fortuna lhe
tivesse sido favorável noutra época, teria chegado a general.
Foi durante a perseguição a um desses roubos que Bill, o
Sorridente, se cruzou pela primeira vez com Françoise.
A jovem vivia ignorando metade das atividades do pai, ou
fingindo ignorá-las, protegendo dentro de si uma esperança ingénua de que
ainda seria possível arrancá-lo à violência. Bill, habituado a saloons,
perseguições e solidão, descobriu nela algo que o perturbou profundamente: paz.
Mas os homens do Oeste raramente recebem o direito de mudar
de vida sem pagar preço elevado.
Quando um último assalto às armas “Springfield” termina em desastre, o bando é cercado nas montanhas. O Virginiano, mortalmente ferido, compreende enfim que passou toda a existência combatendo guerras inúteis. E no instante derradeiro, já sem orgulho nem autoridade, pede apenas uma coisa ao homem que aprendera a respeitar: que não abandone Françoise.
Bill, inclinado junto do velho moribundo, promete casar com
ela.
Porém, depois do enterro, quando as primeiras luzes da
madrugada se derramam sobre as pradarias silenciosas, a promessa começa a
pesar-lhe no coração como uma sentença.
Porque amar Françoise significaria deixar para trás a
estrada, o cavalo, o revólver e a liberdade amarga que sempre definiram a sua
existência.
E talvez haja homens destinados não a possuir um lar…
mas apenas a atravessá-lo por breves instantes, antes de desaparecer novamente no horizonte.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
sábado, 8 de agosto de 2026
BD1938. Frank Cappa no Brasil
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
BD1937. Colecção Ciclone, 79. Bill, o sorridente em "Uma mente perturbada"
A povoação, pobre e perdida entre serras queimadas de sol,
vivia havia semanas sob o peso de um terror inexplicável. Um a um, antigos
fora-da-lei apareciam mortos em circunstâncias medonhas: uns encontrados junto
às ravinas, outros caídos nas cocheiras abandonadas, todos marcados pela mesma
violência fria e silenciosa.
O povo murmurava nomes ao cair da noite; fechavam-se portas
mais cedo; e até os cães pareciam uivar com diferente tristeza.
Bill, conhecido nas fronteiras por “o sorridente”, chegara
ali trazendo preso um bandido procurado havia anos. Entregou-o ao xerife com a
serenidade de quem acredita ainda na justiça dos homens.
Mas, na manhã seguinte, o prisioneiro apareceu morto dentro
da cela.
Foi então que a suspeita começou a espalhar-se como incêndio
em capim seco.
Havia naquela região um antigo rural, homem outrora temido
pela firmeza da sua pontaria e pela inflexível obediência à lei. Chamava-se Sanders.
Depois da morte da mulher, retirara-se para um pequeno rancho distante, vivendo
sozinho entre cavalos velhos, silêncio e recordações. O povo, que necessita
sempre de um rosto para os seus medos, começou a apontá-lo em segredo.
Porque os homens simples confundem facilmente solidão com
mistério.
Bill, contudo, não encontrou em Sanders o olhar febril de um
assassino, mas antes a melancolia resignada de quem conheceu demasiada
violência para continuar a acreditar nela. E foi precisamente o velho rural
quem primeiro desconfiou de um detalhe terrível: todas as vítimas tinham
participado, anos antes, no assalto durante o qual o filho do xerife fora
assassinado.
Subitamente, as mortes deixaram de parecer aleatórias.
O xerife, até então respeitado como homem justo e
silencioso, começava a revelar sombras inquietantes: o modo como evitava falar
do filho, a dureza excessiva com que tratava os prisioneiros, o estranho brilho
nos olhos quando mencionavam certos nomes.
Bill e Sanders unem-se então numa investigação amarga, feita
mais de silêncios do que de palavras, perseguindo não apenas um criminoso, mas
a lenta ruína moral de um homem consumido pela dor.
E quando a verdade enfim se ergue diante deles, terrível e
nua, compreendem ambos que não existe desgraça maior do que esta:
um homem encarregado de fazer justiça acreditar possuir o direito de substituir Deus.
terça-feira, 4 de agosto de 2026
sábado, 1 de agosto de 2026
BD1936. Os Túnicas Azuis em "Os fora da lei"
quinta-feira, 30 de julho de 2026
BD1935. Coleção Ciclone, 66. JOhnny Galaxia em "O castelo de Irás e não Voltarás"
Johnny Galaxia, nome que ressoa como promessa e como
destino. Quem é ele, senão esse cavaleiro moderno que trocou o cavalo pelo
vácuo infinito, e a espada pelo engenho frio das armas de um tempo sem
fronteiras? Vede-o, firme sobre o solo estranho, olhando ao longe aquele
castelo impossível, erguido como desafio à razão e à coragem. Que força o
chama? Que mistério o prende?
Ah! quantas vezes o homem, na sua ânsia de ultrapassar
limites, se lança por caminhos donde não há regresso! E, contudo, é nesse risco,
nesse abismo entre o querer e o poder, que reside a grandeza. Não será o tal
castelo, suspenso entre a lua e o silêncio, uma metáfora dessas ambições que
nos elevam e nos perdem?
Segue, pois, esta aventura, leitor amigo, não como quem busca mero entretenimento, mas como quem se aproxima de um espelho distante. Porque, entre estrelas e sombras, talvez reconheças, disfarçado de herói, o próprio espírito humano, inquieto, indomável, eternamente dividido entre o impulso de avançar… e o pressentimento de nunca mais regressar.
terça-feira, 28 de julho de 2026
BD1934. Colecção Águia, 95. Sam Billie Bill em "Na pista dos Cheyennes"
E eis que o destino, esse inexorável tecelão de encontros e
desgraças, o lança no encalço de um povo perseguido, os Cheyennes, cuja sina
parece já escrita não pelos deuses, mas pela cobiça dos homens que se dizem
civilizados.
Vê-se então Sam no meio de uma marcha dolorosa, onde não há
repouso nem certeza, apenas o estertor da fuga e o pressentimento da tragédia.
De um lado, os soldados da União e os interesses dos brancos que reclamam a
terra como quem reclama ouro; do outro, os filhos das planícies, expulsos do
seu próprio destino, condenados a errar como sombras sobre a relva infinita.
E no coração desta tormenta, o jovem herói não empunha a
violência como bandeira, antes se ergue como ponte frágil entre mundos que não
se entendem. Procura ele mitigar o choque dos homens, conter a fúria do
destino, e impedir que o sangue regue mais uma vez a poeira do deserto.
Mas que pode um só homem contra a marcha pesada da História?
Ainda assim persiste, pois há em si essa nobre teimosia dos que acreditam que a
justiça, ainda que tardia, não é sonho vão.
E assim se desenrola a jornada: cavalgadas sob o sol
impiedoso, encontros prenhes de tensão, silêncios mais eloquentes que
discursos, e sempre, sempre, a sombra da perda a pairar sobre os que fogem e os
que perseguem.
Nota: como podem notar esta capa da Colecção Águia está incorreta.
sábado, 25 de julho de 2026
BD1933. Valérian em "Os fantasmas de Inverlock"
A história afasta-se do tom habitual de exploração espacial
e assume um tom mais misterioso na Terra.
Laureline encontra-se na Escócia, no Castelo de Inverloch, a
reunir vários aliados e especialistas.
Valérian está noutra época e local a tentar detetar uma
anomalia espácio-temporal que ameaça a continuidade da Galaxity (o império
humano do futuro).
Forças misteriosas começam a sabotar e a assombrar a
realidade, preparando o palco para o confronto com os falsos deuses de Hypsis.
E, por agora, só sabemos isto…
quinta-feira, 23 de julho de 2026
BD1932. Coleção Ciclone, 66. Nosy Parker em "Eu também conheci Nosy Parker"
Vede-o ali, entre sombras e tábuas, erguido contra o perigo
como quem responde a um chamamento antigo, talvez inscrito no mais fundo da sua
natureza. Três homens, três ameaças, e, ainda assim, não recua. Quem diria?
Quem ousaria prever que naquele semblante, outrora tido por indeciso, ardia já
o fogo secreto da coragem?
Assim é o homem, leitor amigo: um enigma que só o instante
extremo decifra. E nós, pobres julgadores do quotidiano, quantas vezes erramos
o veredito, antes que a vida nos apresente a prova!
Segue, pois, esta história, não como mero entretenimento,
mas como lição. Porque, no fim, talvez descubras que Nosy Parker não é apenas
um nome impresso, mas um espelho, onde cada um de nós poderá, um dia,
reconhecer-se.
terça-feira, 21 de julho de 2026
BD1931. Colecção Águia, 88. Um fantasma entre os Sioux
Eis que surge, altivo no seu cavalo, um filho da terra,
chamam-lhe Voz de Trovão, nome que ressoa como destino. Não teme, dizem. E quem
somos nós, pobres habitantes de cidades murmurantes, para duvidar de semelhante
afirmação? Não teme, mas, contudo, procura proteção. Ah! que paradoxo tão
humano! Porque não há coragem que dispense abrigo, nem bravura que não conheça,
ainda que por um instante, a sombra da dúvida.
Mas detenhamo-nos um pouco, como faria um prudente professor
de ciências naturais diante de um fenómeno curioso e perguntemos: que força
invisível leva este homem, símbolo de independência, a dirigir-se ao “chefe
branco”? Será o medo que não conhece, ou antes uma necessidade que não
compreende?
Assim, esta capa, que ora se destina a encerrar o número 88
da prestigiada coleção Águia, não é apenas promessa de aventura. É convite à
reflexão. Um fantasma entre os Sioux? Talvez. Mas mais fantasmagórico ainda é
este diálogo silencioso entre mundos, onde cada figura procura, à sua maneira,
um lugar de pertença.
E se me permitem a ousadia, direi: não é o índio que vagueia
como fantasma, somos nós, leitores apressados, que por vezes passamos pelas
histórias sem verdadeiramente as habitar.
Fiquemos, pois. E escutemos. Porque até a Voz de Trovão, no seu silêncio desenhado, tem muito que nos dizer.




















































