terça-feira, 14 de julho de 2026

BD1928. Colecção Águia, 88. O rancho felicidade

Há, nesta imagem, um silêncio que fala e fala alto. Um homem curvado, não tanto pelo peso do corpo, mas pelo da história que traz consigo. O cavalo, igualmente vencido, parece compreender que não transporta apenas um cavaleiro, mas uma vida inteira de pólvora, de poeira e de destinos adiados. O traço negro, rude, quase áspero, não ilustra: testemunha.

Dizem-nos que era pistoleiro. E basta olhar para ele para perceber que não era dos de lenda fácil, desses que o romance pinta com bravura leve e sorriso pronto. Não, este traz o cansaço inscrito nas costas, a morte insinuada no gesto, e talvez, quem sabe, um resto de humanidade que nem as balas conseguiram expulsar.

Chegou ao Rancho Felicidade com chumbo no corpo. Que ironia, leitor atento: a felicidade, esse nome tão cheio, a acolher um homem esvaziado pela violência. E, contudo, acolheram-no. Eis o ponto que merece detença, não a sua fama, não os seus feitos, mas o gesto daqueles que, contra a lógica do Oeste e das suas leis secas, decidiram cuidar.

Dir-me-á o leitor e com razão: “Mas que redenção pode haver num homem assim?” E eu respondo-lhe, à maneira dos velhos mestres: talvez nenhuma. Ou talvez toda. Porque há vidas que não se salvam por inteiro, mas que encontram, no derradeiro instante, uma razão que as justifique.

Caiu em combate, dizem. Não por ouro, não por glória, mas para garantir a felicidade dos seus amigos. Eis o verdadeiro desvio do destino: o homem que viveu pela arma, morre por algo que não se pode disparar, a felicidade alheia.

E aqui, permitam-me um breve desvio, como faria um professor diante dos seus alunos mais inquietos: que força é esta que leva um homem, moldado pela violência, a escolher, no fim, o sacrifício? Será remorso? Será afeição? Ou será apenas o último capricho de uma consciência que, afinal, nunca esteve completamente morta?

A imagem não responde. Limita-se a sugerir. E talvez seja esse o seu maior mérito.

Assim, entre o pó do caminho e a sombra da caverna, fica-nos a figura desse pistoleiro, não como herói, nem como vilão, mas como homem. E, como todos os homens, contraditório, imperfeito, e capaz, no instante final, de surpreender o próprio destino.

Porque, no fim, meu caro leitor, a felicidade, mesmo a de um rancho perdido, constrói-se, não raras vezes, sobre os ombros cansados daqueles que já pouco esperam dela.

 

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