Naquela rua que não conheço, mas que reconheço como se nela
tivesse vivido uma infância que nunca tive, há homens parados diante de outro
homem que também está parado. E toda a tragédia consiste nisto: ninguém avança,
e contudo tudo já aconteceu.
Veemque empunha um revólver e essa simples incongruência
basta para desfazer o medo em raciocínio, não fosse o homem um animal que
prefere o terror à explicação. Porque um fantasma com arma é apenas um homem
com história. E talvez seja isso que mais assusta: não o sobrenatural, mas o
passado que regressa armado.
Imagino o cadáver desaparecido do cadafalso. Não o vejo a
levantar-se, isso seria demasiado claro, mas antes a faltar, como faltam as
certezas quando as procuramos. E dessa ausência nasce tudo: o rumor, a lenda, a
inevitabilidade de que alguém pagará por algo que nunca chegou a ser
compreendido.
Os homens que observam, chapéus baixos, olhos semicerrados, não esperam apenas um tiro. Esperam confirmação. Querem saber se o mundo
ainda obedece às regras simples: vida, morte, culpa, castigo. Mas o homem de
costas, esse que enfrenta todos, já não pertence a essas regras. É mais ideia
do que corpo.
E eu, que nada tenho que ver com aquela rua, sinto contudo
que também ali estou, não entre os homens, mas entre as dúvidas. Porque toda a
vida é isto: um cadafalso de certezas de onde desaparece, inesperadamente,
aquilo que julgávamos definitivo.
E ficamos, como eles, à espera do disparo que nos explique.
Dizem-nos que era pistoleiro. E basta olhar para ele para
perceber que não era dos de lenda fácil, desses que o romance pinta com bravura
leve e sorriso pronto. Não, este traz o cansaço inscrito nas costas, a morte
insinuada no gesto, e talvez, quem sabe, um resto de humanidade que nem as
balas conseguiram expulsar.
Chegou ao Rancho Felicidade com chumbo no corpo. Que ironia,
leitor atento: a felicidade, esse nome tão cheio, a acolher um homem esvaziado
pela violência. E, contudo, acolheram-no. Eis o ponto que merece detença, não
a sua fama, não os seus feitos, mas o gesto daqueles que, contra a lógica do
Oeste e das suas leis secas, decidiram cuidar.
Dir-me-á o leitor e com razão: “Mas que redenção pode
haver num homem assim?” E eu respondo-lhe, à maneira dos velhos mestres: talvez
nenhuma. Ou talvez toda. Porque há vidas que não se salvam por inteiro, mas que
encontram, no derradeiro instante, uma razão que as justifique.
Caiu em combate, dizem. Não por ouro, não por glória, mas
para garantir a felicidade dos seus amigos. Eis o verdadeiro desvio do destino:
o homem que viveu pela arma, morre por algo que não se pode disparar, a
felicidade alheia.
E aqui, permitam-me um breve desvio, como faria um professor
diante dos seus alunos mais inquietos: que força é esta que leva um homem,
moldado pela violência, a escolher, no fim, o sacrifício? Será remorso? Será
afeição? Ou será apenas o último capricho de uma consciência que, afinal, nunca
esteve completamente morta?
A imagem não responde. Limita-se a sugerir. E talvez seja
esse o seu maior mérito.
Assim, entre o pó do caminho e a sombra da caverna, fica-nos
a figura desse pistoleiro, não como herói, nem como vilão, mas como homem. E,
como todos os homens, contraditório, imperfeito, e capaz, no instante final, de
surpreender o próprio destino.
Porque, no fim, meu caro leitor, a felicidade, mesmo a de um rancho perdido, constrói-se, não raras vezes, sobre os ombros cansados daqueles que já pouco esperam dela.
Logo nas vinhetas seguintes, a inquietação instala-se. A
frase — “Se não encontrar água, Lince ‘morrerá’ seco…” — paira como sentença
bíblica. Não é apenas a sobrevivência que está em jogo; é o limite do homem
perante a natureza e, talvez, perante si próprio. Garrett teria gostado deste
contraste: o heroísmo calado, quase trágico, de quem avança sem garantias,
guiado por um código invisível.
E eis que surge o indício — miragem ou promessa? “Olhar! É
miragem ou água?” pergunta-se, e nessa dúvida cabe toda a condição humana: ver
e não saber, desejar e temer. O cavalo empina-se, como se também ele fosse
tocado pelo pressentimento. A terra, antes muda, parece agora conspirar com o
destino.
Mas há um detalhe que merece pausa — Jeff Colt, o xerife
negro, figura rara e digna, que não pede licença para existir naquele mundo de
fronteira. Garrett, sensível às contradições do seu tempo, talvez nele visse um
símbolo: o homem que, carregando o peso de olhares e preconceitos, se ergue
ainda assim como guardião da justiça. E Lince, o indígena, não como sombra
exótica, mas como consciência da terra, aquele que lê sinais onde outros só
veem poeira.
Que encontrarão eles naquele rio?
Não apenas água, isso seria pouco. O “rio tenebroso”
anuncia mais: talvez um refúgio envenenado, talvez homens piores que a seca,
talvez a prova última daquilo que são. Porque, como nas melhores narrativas
românticas, o cenário não é cenário, é espelho. E o rio, ao invés de saciar,
poderá revelar.
Assim começa a jornada: dois paladinos, não de capa, mas de
poeira e suor, avançando para onde o mapa se desfaz e a moral é testada. E nós,
leitores, seguimos atrás, não pela água, mas pela verdade que corre, escura,
nas margens desse rio.
Graças a ela, passaram…
No silêncio tenso da planície, onde o vento levanta poeira
como se quisesse apagar os rastos dos homens, cruzam-se destinos que há muito
se perseguiam sem se encontrarem.
Os cavaleiros aproximam-se devagar. Há desconfiança nos
gestos, mãos que não se afastam das armas, olhos que medem cada movimento. Mas,
no instante em que a jovem ergue o rosto e fixa o coronel, algo se rompe, não o
perigo, não ainda, mas uma memória, um reconhecimento que vem de longe, como um
eco esquecido.
“Pai…”
A palavra sai-lhe quase sem querer, frágil e absoluta. E o
homem, endurecido por anos de comando e ausência, vacila. Não é o soldado que
responde, é o pai, enterrado sob camadas de dever e silêncio. Aproxima-se, como
quem teme que o sonho se desfaça, e segura-lhe os ombros, como se precisasse de
a sentir real.
Mas o mundo não suspende o seu curso por causa de um
reencontro.
À volta, os homens trocam olhares. Há nomes que pesam,
Kiowas, deserções, raptos, histórias que não cabem numa simples explicação. A
verdade emerge aos pedaços, dita em frases curtas, interrompidas, como se cada
revelação abrisse uma nova ferida. A jovem viveu entre dois mundos; foi filha,
prisioneira, talvez ponte entre inimigos que nunca se quiseram compreender.
E há outro, o “Castor Cinzento”, figura ausente mas presente
em cada palavra. Não é apenas um nome: é uma escolha, uma dívida, talvez um
afeto que desafia as fronteiras traçadas pelos homens brancos. Pedem-lhe que o
traia, que o entregue. Ela hesita. Nos seus olhos, o conflito é claro: sangue
ou lealdade? origem ou experiência?
O coronel, agora pai antes de tudo, quer protegê-la, mas não
sabe de quê. Do perigo que a rodeia? Ou das decisões que ela terá de tomar?
Ao longe, surgem figuras. Os Kiowas. A tensão adensa-se como
nuvem de tempestade. Há gritos contidos, ordens prontas a rebentar. Um passo em
falso, e tudo se perde.
“Não lutem contra ele”, pede ela, quase num sussurro
desesperado. Não é apenas medo, é conhecimento. Sabe o que está em jogo, mais
do que qualquer daqueles homens.
E então, no meio desse impasse, dá-se o gesto mais difícil:
o de deixar partir. Não há vitória, não há reconciliação plena, apenas a
aceitação amarga de que nem todos os laços podem ser mantidos sem quebrar
outros.
Ela afasta-se, lenta, sem olhar para trás de imediato. O pai
fica, imóvel, dividido entre correr atrás dela ou respeitar a escolha que não
compreende totalmente. O vento passa entre ambos, indiferente.
Naquela terra de fronteira, ninguém sai ileso. Nem os que partem, nem os que ficam.