quinta-feira, 2 de julho de 2026

BD1923. Coleção Ciclone, nº 60

Raptada há muitos anos, tinha sido adotada pelo grande chefe Kiowa. E foi num dia que a caravana ali chegou, precedida de soldados que ela foi reconhecida pelo comandante destes. Era tal e qual a figura da mãe.

Graças a ela, passaram…

No silêncio tenso da planície, onde o vento levanta poeira como se quisesse apagar os rastos dos homens, cruzam-se destinos que há muito se perseguiam sem se encontrarem.

Os cavaleiros aproximam-se devagar. Há desconfiança nos gestos, mãos que não se afastam das armas, olhos que medem cada movimento. Mas, no instante em que a jovem ergue o rosto e fixa o coronel, algo se rompe, não o perigo, não ainda, mas uma memória, um reconhecimento que vem de longe, como um eco esquecido.

“Pai…”

A palavra sai-lhe quase sem querer, frágil e absoluta. E o homem, endurecido por anos de comando e ausência, vacila. Não é o soldado que responde, é o pai, enterrado sob camadas de dever e silêncio. Aproxima-se, como quem teme que o sonho se desfaça, e segura-lhe os ombros, como se precisasse de a sentir real.

Mas o mundo não suspende o seu curso por causa de um reencontro.

À volta, os homens trocam olhares. Há nomes que pesam, Kiowas, deserções, raptos, histórias que não cabem numa simples explicação. A verdade emerge aos pedaços, dita em frases curtas, interrompidas, como se cada revelação abrisse uma nova ferida. A jovem viveu entre dois mundos; foi filha, prisioneira, talvez ponte entre inimigos que nunca se quiseram compreender.

E há outro, o “Castor Cinzento”, figura ausente mas presente em cada palavra. Não é apenas um nome: é uma escolha, uma dívida, talvez um afeto que desafia as fronteiras traçadas pelos homens brancos. Pedem-lhe que o traia, que o entregue. Ela hesita. Nos seus olhos, o conflito é claro: sangue ou lealdade? origem ou experiência?

O coronel, agora pai antes de tudo, quer protegê-la, mas não sabe de quê. Do perigo que a rodeia? Ou das decisões que ela terá de tomar?

Ao longe, surgem figuras. Os Kiowas. A tensão adensa-se como nuvem de tempestade. Há gritos contidos, ordens prontas a rebentar. Um passo em falso, e tudo se perde.

“Não lutem contra ele”, pede ela, quase num sussurro desesperado. Não é apenas medo, é conhecimento. Sabe o que está em jogo, mais do que qualquer daqueles homens.

E então, no meio desse impasse, dá-se o gesto mais difícil: o de deixar partir. Não há vitória, não há reconciliação plena, apenas a aceitação amarga de que nem todos os laços podem ser mantidos sem quebrar outros.

Ela afasta-se, lenta, sem olhar para trás de imediato. O pai fica, imóvel, dividido entre correr atrás dela ou respeitar a escolha que não compreende totalmente. O vento passa entre ambos, indiferente.

Naquela terra de fronteira, ninguém sai ileso. Nem os que partem, nem os que ficam.

 

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