Chihuahua Pearl — Uma mulher de armas que não precisa de
ser salva!
Na história que apresentamos retirada de No rasto de
Blueberry, há qualquer coisa de irresistível na maneira como a nossa adorada
Chihuahua Pearl entra em cena para salvar o seu querido Mike Steve Blueberry. E
não me refiro apenas à sua beleza, ao vestido vermelho ou àquela atitude
provocadora que tão bem a caracteriza. Refiro-me, sobretudo, à extraordinária
combinação de coragem, inteligência, descaramento e temperamento explosivo que
faz dela uma das personagens femininas mais fascinantes do universo de
Blueberry.
Porque, convenhamos, o nosso tenente encontra-se numa
situação pouco digna da sua reputação! Apanhado por três patifes, desarmado,
com uma corda ao pescoço e à mercê de sujeitos que não primam pela
inteligência, Blueberry está muito longe da imagem do herói invencível que
habitualmente conhecemos.
E quem aparece para resolver o problema? Naturalmente,
Pearl!
Uma entrada triunfal
O primeiro mérito de Pearl está na maneira como domina
imediatamente a situação. Em vez de se deixar intimidar pelos três mexicanos,
enfrenta-os com uma segurança desconcertante. Não precisa de levantar a voz nem
de fazer grandes ameaças. A sua simples presença altera o equilíbrio de forças.
E há um pormenor delicioso: antes de se preocupar
verdadeiramente com os bandidos, Pearl encontra tempo para censurar Blueberry
por ter faltado ao seu espetáculo!
É uma reação perfeitamente coerente com a personagem. Para
Pearl, salvar a vida ao homem de quem gosta não significa abdicar do direito de
lhe dar uma valente reprimenda.
O amor é uma coisa. A pontualidade é outra!
A inteligência por detrás da sedução
A sequência em que Pearl enfrenta os três malfeitores é
particularmente divertida.
Os bandidos, convencidos de que estão perante uma mulher
indefesa, cometem o erro fatal de confundir feminilidade com fraqueza. Quando
exigem que lhes mostre o que esconde debaixo do vestido, julgam ter encontrado
uma oportunidade para se divertirem.
Mas Pearl percebe imediatamente como transformar a
arrogância deles numa armadilha.
A sua resposta — «BOM, JÁ QUE INSISTEM...» — é uma pequena
obra-prima de ironia.
Os homens esperam um espetáculo de pernas e rendas. Pearl
prepara-lhes um espetáculo de pólvora!
O mais interessante é que ela não vence pela força física,
mas pela rapidez de raciocínio. Conhece perfeitamente a maneira como aqueles
homens pensam e utiliza essa previsibilidade contra eles.
É uma demonstração magnífica de sangue-frio, ousadia e
inteligência prática.
Uma pistoleira à altura de Blueberry
Quando Pearl finalmente saca da arma, a situação inverte-se
num instante.
Aqueles três valentões, que momentos antes se divertiam à
custa de um homem prestes a ser enforcado, descobrem que escolheram a mulher
errada para as suas brincadeiras.
E Pearl não hesita.
O seu desempenho tem uma qualidade particularmente
interessante: ela age com a mesma determinação que admiramos em Blueberry, mas
sem perder a personalidade própria.
Não se transforma numa versão feminina do tenente. Continua
a ser Chihuahua Pearl, com toda a sua elegância, irreverência e teatralidade.
O vestido vermelho, as luvas, as plumas e a beleza
exuberante não são obstáculos à sua coragem. Fazem parte dela.
E depois do salvamento... o castigo!
É aqui que a história atinge, para mim, o seu ponto mais
divertido.
Blueberry está salvo. Os bandidos foram neutralizados. Seria
de esperar um reencontro romântico, talvez um abraço apaixonado, algumas
palavras ternurentas...
Mas estamos a falar de Chihuahua Pearl!
A nossa heroína não esqueceu que Mike faltou ao espetáculo.
Primeiro, trata-o com uma doçura suspeita, prometendo-lhe um
banho quente e muitos mimos. Blueberry, naturalmente, parece acreditar que o
pior já passou.
Pobre ingénuo!
O estalo que se segue é tão inesperado quanto delicioso.
E, para completar a vingança, Pearl parte a cavalo, levando
o seu amado atrás, preso pela corda, enquanto canta alegremente:
«I AM A POOR LONESOME COW-GIRL...»
É uma conclusão verdadeiramente saborosa, porque inverte por
completo os papéis tradicionais do western. O grande aventureiro, capaz de
enfrentar exércitos e pistoleiros, acaba reduzido à condição de acompanhante
involuntário de uma mulher que não admite ser contrariada.
E a verdade é que Blueberry nunca parece tão vulnerável como
quando enfrenta o temperamento de Pearl!
Apreciação final
Esta pequena aventura funciona como uma excelente homenagem
ao universo criado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud. O humor, a ação, os
diálogos provocadores e a cumplicidade conflituosa entre os protagonistas
recuperam muito do espírito que tornou estas personagens inesquecíveis.
Mas a grande vencedora é, indiscutivelmente, Chihuahua
Pearl.
A personagem não se limita a desempenhar o papel
convencional da mulher apaixonada que corre em auxílio do seu homem. É ela quem
toma a iniciativa, controla os acontecimentos, humilha os adversários e ainda
encontra maneira de ajustar contas com Blueberry.
Há também uma dimensão afetiva por detrás de toda aquela
fúria. Pearl está zangada porque Mike lhe importa. A sua irritação, por mais
exagerada que seja, revela uma relação feita de atração, cumplicidade,
desencontros e uma permanente disputa de vontades.
Pearl salva Blueberry dos bandidos, mas não o salva das
consequências de a ter deixado à espera.
E talvez seja precisamente isso que torna esta história tão
encantadora.
Porque, no fundo, Blueberry pode ser o melhor pistoleiro do
Oeste, mas há uma batalha que dificilmente conseguirá vencer: aquela que trava
com o coração e com o génio de Chihuahua Pearl.
E digo mais: depois de ver a nossa adorada Pearl em ação,
quase dá vontade de agradecer aos três patifes por terem cometido a imprudência
de se meterem com Blueberry. Sem eles, teríamos perdido uma das mais divertidas
demonstrações de que, neste casal, quem manda verdadeiramente é ela!
Mas o desfecho podia ser bem diferente… tal como veem nesta
página.


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