quinta-feira, 13 de agosto de 2026

BD1939. Colecção Ciclone, 79. Bill, o sorridente em "O Virginiano"

Nas fronteiras poeirentas entre o México e o território americano, um nome começava novamente a espalhar inquietação entre caravanas militares e pequenas povoações do deserto: o Virginiano.

Antigo oficial de guerra, homem de disciplina severa e inteligência fria, abandonara há anos o uniforme para comandar um bando especializado em assaltos a carregamentos de armas. Os seus golpes eram rápidos, calculados e quase militares; e muitos afirmavam que, se a fortuna lhe tivesse sido favorável noutra época, teria chegado a general.

Foi durante a perseguição a um desses roubos que Bill, o Sorridente, se cruzou pela primeira vez com Françoise.

A jovem vivia ignorando metade das atividades do pai, ou fingindo ignorá-las, protegendo dentro de si uma esperança ingénua de que ainda seria possível arrancá-lo à violência. Bill, habituado a saloons, perseguições e solidão, descobriu nela algo que o perturbou profundamente: paz.

Mas os homens do Oeste raramente recebem o direito de mudar de vida sem pagar preço elevado.

Quando um último assalto às armas “Springfield” termina em desastre, o bando é cercado nas montanhas. O Virginiano, mortalmente ferido, compreende enfim que passou toda a existência combatendo guerras inúteis. E no instante derradeiro, já sem orgulho nem autoridade, pede apenas uma coisa ao homem que aprendera a respeitar: que não abandone Françoise.

Bill, inclinado junto do velho moribundo, promete casar com ela.

Porém, depois do enterro, quando as primeiras luzes da madrugada se derramam sobre as pradarias silenciosas, a promessa começa a pesar-lhe no coração como uma sentença.

Porque amar Françoise significaria deixar para trás a estrada, o cavalo, o revólver e a liberdade amarga que sempre definiram a sua existência.

E talvez haja homens destinados não a possuir um lar…

mas apenas a atravessá-lo por breves instantes, antes de desaparecer novamente no horizonte.

sábado, 8 de agosto de 2026

BD1938. Frank Cappa no Brasil

 

Apareceu-nos, por volta dos anos noventa, este Cappa, um desses sujeitos de barba por fazer e olhar gasto, que trazem a alma curtida pelo salitre de mil desterros. Não busquem nele o heroísmo de fanfarra; é antes um melancólico da objetiva, que desembarcou no Brasil não para colher o brilho dos trópicos, mas para neles devassar a miséria.
Ei-lo, pois, mergulhado na espessura de uma Amazónia que Range em humidade e ganância, onde a natureza, essa velha mãe generosa, se vê esquartejada pelo apetite de brutos. E, com o mesmo passo desiludido, percorre a selva de pedra das metrópoles, onde o luxo insultuoso das avenidas convive, porta a porta, com a crueza da fome e o estalido seco da pólvora. Cappa limita-se a olhar, com esse cinismo de quem já viu todos os deuses caírem do altar, registando na sua câmara o que a boa sociedade, por pudor ou conveniência, prefere fingir que não existe. É uma narrativa amarga, sim senhor, mas desenhada com uma tal mestria que nela se sente o próprio cheiro da lama e o calor asfixiante do vício humano.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

BD1937. Colecção Ciclone, 79. Bill, o sorridente em "Uma mente perturbada"

Já não havia paz em Black Valley.

A povoação, pobre e perdida entre serras queimadas de sol, vivia havia semanas sob o peso de um terror inexplicável. Um a um, antigos fora-da-lei apareciam mortos em circunstâncias medonhas: uns encontrados junto às ravinas, outros caídos nas cocheiras abandonadas, todos marcados pela mesma violência fria e silenciosa.

O povo murmurava nomes ao cair da noite; fechavam-se portas mais cedo; e até os cães pareciam uivar com diferente tristeza.

Bill, conhecido nas fronteiras por “o sorridente”, chegara ali trazendo preso um bandido procurado havia anos. Entregou-o ao xerife com a serenidade de quem acredita ainda na justiça dos homens.

Mas, na manhã seguinte, o prisioneiro apareceu morto dentro da cela.

Foi então que a suspeita começou a espalhar-se como incêndio em capim seco.

Havia naquela região um antigo rural, homem outrora temido pela firmeza da sua pontaria e pela inflexível obediência à lei. Chamava-se Sanders. Depois da morte da mulher, retirara-se para um pequeno rancho distante, vivendo sozinho entre cavalos velhos, silêncio e recordações. O povo, que necessita sempre de um rosto para os seus medos, começou a apontá-lo em segredo.

Porque os homens simples confundem facilmente solidão com mistério.

Bill, contudo, não encontrou em Sanders o olhar febril de um assassino, mas antes a melancolia resignada de quem conheceu demasiada violência para continuar a acreditar nela. E foi precisamente o velho rural quem primeiro desconfiou de um detalhe terrível: todas as vítimas tinham participado, anos antes, no assalto durante o qual o filho do xerife fora assassinado.

Subitamente, as mortes deixaram de parecer aleatórias.

O xerife, até então respeitado como homem justo e silencioso, começava a revelar sombras inquietantes: o modo como evitava falar do filho, a dureza excessiva com que tratava os prisioneiros, o estranho brilho nos olhos quando mencionavam certos nomes.

Bill e Sanders unem-se então numa investigação amarga, feita mais de silêncios do que de palavras, perseguindo não apenas um criminoso, mas a lenta ruína moral de um homem consumido pela dor.

E quando a verdade enfim se ergue diante deles, terrível e nua, compreendem ambos que não existe desgraça maior do que esta:

um homem encarregado de fazer justiça acreditar possuir o direito de substituir Deus.

sábado, 1 de agosto de 2026

BD1936. Os Túnicas Azuis em "Os fora da lei"

 

Em "Os Fora-da-Lei" (Outlaw), o quarto álbum da série Os Túnicas Azuis, a guerra de secessão americana é temporariamente colocada em segundo plano devido a uma ameaça comum.
Tanto o exército da União (Norte) como o dos Confederados (Sul) estão a sofrer ataques constantes de bandos de fora-da-lei, índios e mexicanos que se aproveitam do caos da guerra para roubar material militar.
Para lidar com estes ataques que tornam a guerra "impossível", os generais de ambos os lados decidem assinar uma trégua temporária para unir forças e eliminar os criminosos.
O Sargento Chesterfield e o Cabo Blutch são convocados para uma missão de infiltração. Eles são formalmente "expulsos" do exército (degradados) para que possam passar por civis ou desertores e infiltrar-se no bando dos fora-da-lei para os desmantelar por dentro.
Como seria de esperar, Chesterfield fica devastado por perder os seus galões (mesmo sendo apenas uma fachada), enquanto Blutch fica radiante com a ideia de finalmente estar livre da vida militar e das cargas de cavalaria.
Este álbum é historicamente importante para a série porque foi durante a sua produção que o desenhador original, Louis Salvérius, faleceu. Willy Lambil assumiu o desenho a partir da página 37, terminando as últimas oito páginas e tornando-se o desenhador oficial da série durante as décadas seguintes.

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