Naquela rua que não conheço, mas que reconheço como se nela
tivesse vivido uma infância que nunca tive, há homens parados diante de outro
homem que também está parado. E toda a tragédia consiste nisto: ninguém avança,
e contudo tudo já aconteceu.
Veemque empunha um revólver e essa simples incongruência
basta para desfazer o medo em raciocínio, não fosse o homem um animal que
prefere o terror à explicação. Porque um fantasma com arma é apenas um homem
com história. E talvez seja isso que mais assusta: não o sobrenatural, mas o
passado que regressa armado.
Imagino o cadáver desaparecido do cadafalso. Não o vejo a
levantar-se, isso seria demasiado claro, mas antes a faltar, como faltam as
certezas quando as procuramos. E dessa ausência nasce tudo: o rumor, a lenda, a
inevitabilidade de que alguém pagará por algo que nunca chegou a ser
compreendido.
Os homens que observam, chapéus baixos, olhos semicerrados, não esperam apenas um tiro. Esperam confirmação. Querem saber se o mundo
ainda obedece às regras simples: vida, morte, culpa, castigo. Mas o homem de
costas, esse que enfrenta todos, já não pertence a essas regras. É mais ideia
do que corpo.
E eu, que nada tenho que ver com aquela rua, sinto contudo
que também ali estou, não entre os homens, mas entre as dúvidas. Porque toda a
vida é isto: um cadafalso de certezas de onde desaparece, inesperadamente,
aquilo que julgávamos definitivo.
E ficamos, como eles, à espera do disparo que nos explique.





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