quinta-feira, 6 de agosto de 2026

BD1937. Colecção Ciclone, 79. Bill, o sorridente em "Uma mente perturbada"

Já não havia paz em Black Valley.

A povoação, pobre e perdida entre serras queimadas de sol, vivia havia semanas sob o peso de um terror inexplicável. Um a um, antigos fora-da-lei apareciam mortos em circunstâncias medonhas: uns encontrados junto às ravinas, outros caídos nas cocheiras abandonadas, todos marcados pela mesma violência fria e silenciosa.

O povo murmurava nomes ao cair da noite; fechavam-se portas mais cedo; e até os cães pareciam uivar com diferente tristeza.

Bill, conhecido nas fronteiras por “o sorridente”, chegara ali trazendo preso um bandido procurado havia anos. Entregou-o ao xerife com a serenidade de quem acredita ainda na justiça dos homens.

Mas, na manhã seguinte, o prisioneiro apareceu morto dentro da cela.

Foi então que a suspeita começou a espalhar-se como incêndio em capim seco.

Havia naquela região um antigo rural, homem outrora temido pela firmeza da sua pontaria e pela inflexível obediência à lei. Chamava-se Sanders. Depois da morte da mulher, retirara-se para um pequeno rancho distante, vivendo sozinho entre cavalos velhos, silêncio e recordações. O povo, que necessita sempre de um rosto para os seus medos, começou a apontá-lo em segredo.

Porque os homens simples confundem facilmente solidão com mistério.

Bill, contudo, não encontrou em Sanders o olhar febril de um assassino, mas antes a melancolia resignada de quem conheceu demasiada violência para continuar a acreditar nela. E foi precisamente o velho rural quem primeiro desconfiou de um detalhe terrível: todas as vítimas tinham participado, anos antes, no assalto durante o qual o filho do xerife fora assassinado.

Subitamente, as mortes deixaram de parecer aleatórias.

O xerife, até então respeitado como homem justo e silencioso, começava a revelar sombras inquietantes: o modo como evitava falar do filho, a dureza excessiva com que tratava os prisioneiros, o estranho brilho nos olhos quando mencionavam certos nomes.

Bill e Sanders unem-se então numa investigação amarga, feita mais de silêncios do que de palavras, perseguindo não apenas um criminoso, mas a lenta ruína moral de um homem consumido pela dor.

E quando a verdade enfim se ergue diante deles, terrível e nua, compreendem ambos que não existe desgraça maior do que esta:

um homem encarregado de fazer justiça acreditar possuir o direito de substituir Deus.

 

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