A povoação, pobre e perdida entre serras queimadas de sol,
vivia havia semanas sob o peso de um terror inexplicável. Um a um, antigos
fora-da-lei apareciam mortos em circunstâncias medonhas: uns encontrados junto
às ravinas, outros caídos nas cocheiras abandonadas, todos marcados pela mesma
violência fria e silenciosa.
O povo murmurava nomes ao cair da noite; fechavam-se portas
mais cedo; e até os cães pareciam uivar com diferente tristeza.
Bill, conhecido nas fronteiras por “o sorridente”, chegara
ali trazendo preso um bandido procurado havia anos. Entregou-o ao xerife com a
serenidade de quem acredita ainda na justiça dos homens.
Mas, na manhã seguinte, o prisioneiro apareceu morto dentro
da cela.
Foi então que a suspeita começou a espalhar-se como incêndio
em capim seco.
Havia naquela região um antigo rural, homem outrora temido
pela firmeza da sua pontaria e pela inflexível obediência à lei. Chamava-se Sanders.
Depois da morte da mulher, retirara-se para um pequeno rancho distante, vivendo
sozinho entre cavalos velhos, silêncio e recordações. O povo, que necessita
sempre de um rosto para os seus medos, começou a apontá-lo em segredo.
Porque os homens simples confundem facilmente solidão com
mistério.
Bill, contudo, não encontrou em Sanders o olhar febril de um
assassino, mas antes a melancolia resignada de quem conheceu demasiada
violência para continuar a acreditar nela. E foi precisamente o velho rural
quem primeiro desconfiou de um detalhe terrível: todas as vítimas tinham
participado, anos antes, no assalto durante o qual o filho do xerife fora
assassinado.
Subitamente, as mortes deixaram de parecer aleatórias.
O xerife, até então respeitado como homem justo e
silencioso, começava a revelar sombras inquietantes: o modo como evitava falar
do filho, a dureza excessiva com que tratava os prisioneiros, o estranho brilho
nos olhos quando mencionavam certos nomes.
Bill e Sanders unem-se então numa investigação amarga, feita
mais de silêncios do que de palavras, perseguindo não apenas um criminoso, mas
a lenta ruína moral de um homem consumido pela dor.
E quando a verdade enfim se ergue diante deles, terrível e
nua, compreendem ambos que não existe desgraça maior do que esta:
um homem encarregado de fazer justiça acreditar possuir o direito de substituir Deus.
