Olhei demoradamente para a última página da história, onde
dois homens, separados por uma vida inteira e unidos por uma mulher que já não
pertencia ao mundo dos vivos, permaneciam frente a frente, e pensei que talvez
fosse esta a maior das ironias do destino, não devolver aos homens aquilo que
perderam, mas entregar-lhes, quando já nada esperam, a prova de que nem tudo se
perdeu.
O velho chamava-se Blueberry, embora já ninguém o tratasse
por esse nome, como se os nomes fossem roupas que a idade nos obriga a
abandonar, e o jovem chamava-se James Stephen Holloway, nome respeitável,
próprio de quem estudava Direito em Berkeley e desejava ser juiz, o que não deixa
de ser curioso, pensei, que o filho de uma mulher tão avessa às regras dos
homens desejasse dedicar a vida a interpretar as leis que esses mesmos homens
inventaram.
A mãe chamara-se Chihuahua Pearl, ou Cassie Holloway,
conforme as circunstâncias e as conveniências, mas certamente nenhum desses
nomes conseguiria encerrá-la por inteiro, porque há mulheres que não cabem num
nome, nem numa casa, nem sequer na memória de quem as amou. E Blueberry
amara-a. Dissera-o finalmente, diante daquele rapaz que lhe trazia os olhos de
uma juventude perdida e uma carta escrita pela mão da morta. “Eu amei-a, mas
ela nunca deixou ninguém decidir o caminho que devia seguir”. E eu, que sempre
aconselhei os outros a contemplar a passagem das coisas sem procurar detê-las,
reconheço naquela confissão uma sabedoria que os anos haviam arrancado ao velho
soldado, não sem sofrimento, porque compreender a liberdade dos outros é
relativamente fácil, aceitá-la quando nos priva daquilo que amamos é uma das
mais difíceis aprendizagens humanas.
Talvez Pearl tivesse amado Blueberry mais do que ele alguma
vez soubera, talvez tivesse partido precisamente porque o amava, ou talvez
tivesse simplesmente escolhido partir, sem que o amor tivesse nisso qualquer
responsabilidade, pois não devemos cometer a injustiça de explicar todas as
decisões de uma mulher pelo homem que deixou para trás. Demoro-me nesta ideia.
A liberdade é uma palavra que todos pronunciam com entusiasmo enquanto não lhes
exige uma renúncia.
Blueberry percorrera desertos, enfrentara soldados, índios,
pistoleiros, aventureiros e homens sem escrúpulos, escapara à morte tantas
vezes que a própria morte deveria ter acabado por considerá-lo um conhecido
inconveniente, mas fora incapaz de vencer aquela mulher, não porque ela fosse
mais forte do que os seus inimigos, mas porque nunca aceitara ser sua inimiga
nem sua propriedade.
E eis que, muitos anos depois, quando o corpo já se
inclinava para a terra e a memória se tornava mais vasta do que o futuro,
chegava-lhe um jovem trazendo uma carta. As cartas dos mortos são uma forma
particularmente cruel de correspondência, porque quem as recebe pode responder
a todas as perguntas menos à única que verdadeiramente importa: “Por que não me
disseste isto enquanto ainda podíamos falar?”.
O velho abriu a carta. Reconheceu imediatamente o estilo de
Pearl, aquela insolência afectuosa, aquela maneira de insultar para esconder a
ternura, como se a delicadeza fosse uma fraqueza que uma mulher do Oeste não
pudesse permitir-se, e talvez tenha sido nesse instante, mais do que quando
ouviu pronunciar o nome dela, que compreendeu que estava morta. Porque os
mortos tornam-se verdadeiramente mortos quando reconhecemos que nunca mais
acrescentarão uma palavra àquelas que deixaram. Depois olhou para o rapaz. Jim,
disse. E logo a seguir, Jimmy. Duas palavras apenas, mas percebe-se que nelas
cabiam cinquenta anos de ausência, todas as noites em que Blueberry poderia ter
sido pai sem o saber, todos os aniversários que não celebrara, todas as
perguntas que não fizera e todas as respostas que agora chegavam demasiado
tarde.
Não sabemos se aquele jovem era seu filho, ou apenas o filho
da mulher que amara, e talvez a distinção fosse, naquele momento, menos
importante do que parecia, porque há parentescos que o sangue estabelece e
outros que a memória consagra. O rapaz chorou. O velho pousou-lhe a mão na
cabeça, gesto simples, quase paternal. Os homens passam grande parte da
existência a procurar palavras capazes de explicar o amor, quando por vezes uma
mão pousada sobre os cabelos de alguém diz mais do que todas as declarações que
ficaram por fazer.
Ao longe, a família de Blueberry observava os dois homens.
Havia ali uma mulher e um rapaz, havia uma casa, animais, cercas, uma vida
construída depois de muitas outras vidas. O passado não regressara para
destruir o presente, como tantas vezes sucede nas histórias dos homens, mas
para lhe acrescentar uma verdade. Pearl não voltaria. Não desceria de um
cavalo, não surgiria entre as árvores com aquele sorriso provocador que outrora
fizera perder a compostura ao tenente Blueberry, não lhe chamaria patife, nem
lhe exigiria explicações por ter envelhecido sem ela. Mas alguma coisa sua
estava ali. Talvez nos olhos do rapaz, talvez na maneira de enfrentar um
desconhecido, talvez naquela obstinação de atravessar quatro estados para entregar
uma carta que poderia ter enviado pelo correio. A vida, indiferente à prudência
dos filósofos, continuava a surpreender os homens até ao último instante.
Por fim, Blueberry fez uma pergunta. “Tu... tu ficas um
bocado?”. Não lhe pediu que ficasse para sempre, não lhe prometeu uma herança,
não lhe ofereceu um nome nem uma explicação para os anos perdidos. Pediu-lhe um
bocado de tempo. O velho aventureiro, depois de uma existência passada a
conquistar territórios, a atravessar fronteiras e a fugir aos homens que o
perseguiam, descobrira finalmente qual era a única coisa que valia a pena
pedir. Tempo. Um pouco de tempo para conhecer aquele rapaz, para lhe falar da
mãe, para lhe contar como era o Oeste quando ainda havia espaço para os sonhos
e para os erros, para lhe dizer que Chihuahua Pearl fora bela, indomável,
contraditória, e que talvez por isso mesmo continuasse viva na memória de quem
a conhecera.
É altura de fechar este belo álbum. A morte levara Pearl,
mas não conseguira levar tudo, que a liberdade dela sobrevivera no filho e na
recordação do homem que a amara, e que talvez o amor verdadeiro não fosse o
desejo de conservar alguém para sempre, mas a capacidade de aceitar que esse
alguém continue a existir para além de nós. E, se ainda pudesse dirigir-me ao
velho cavaleiro do Oeste, diria “Fizeste bem, Blueberry, em não lhe pedires que
fique para sempre, porque o para sempre é uma promessa que só os mortos
conseguem cumprir, e mesmo esses, como acabamos de ver, nem sempre a cumprem”.
Depois ficaria em silêncio.









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