domingo, 25 de outubro de 2026

BD1971_A. Encontros de Blueberry. O filho que o tempo devolveu

Olhei demoradamente para a última página da história, onde dois homens, separados por uma vida inteira e unidos por uma mulher que já não pertencia ao mundo dos vivos, permaneciam frente a frente, e pensei que talvez fosse esta a maior das ironias do destino, não devolver aos homens aquilo que perderam, mas entregar-lhes, quando já nada esperam, a prova de que nem tudo se perdeu.

O velho chamava-se Blueberry, embora já ninguém o tratasse por esse nome, como se os nomes fossem roupas que a idade nos obriga a abandonar, e o jovem chamava-se James Stephen Holloway, nome respeitável, próprio de quem estudava Direito em Berkeley e desejava ser juiz, o que não deixa de ser curioso, pensei, que o filho de uma mulher tão avessa às regras dos homens desejasse dedicar a vida a interpretar as leis que esses mesmos homens inventaram.

A mãe chamara-se Chihuahua Pearl, ou Cassie Holloway, conforme as circunstâncias e as conveniências, mas certamente nenhum desses nomes conseguiria encerrá-la por inteiro, porque há mulheres que não cabem num nome, nem numa casa, nem sequer na memória de quem as amou. E Blueberry amara-a. Dissera-o finalmente, diante daquele rapaz que lhe trazia os olhos de uma juventude perdida e uma carta escrita pela mão da morta. “Eu amei-a, mas ela nunca deixou ninguém decidir o caminho que devia seguir”. E eu, que sempre aconselhei os outros a contemplar a passagem das coisas sem procurar detê-las, reconheço naquela confissão uma sabedoria que os anos haviam arrancado ao velho soldado, não sem sofrimento, porque compreender a liberdade dos outros é relativamente fácil, aceitá-la quando nos priva daquilo que amamos é uma das mais difíceis aprendizagens humanas.

Talvez Pearl tivesse amado Blueberry mais do que ele alguma vez soubera, talvez tivesse partido precisamente porque o amava, ou talvez tivesse simplesmente escolhido partir, sem que o amor tivesse nisso qualquer responsabilidade, pois não devemos cometer a injustiça de explicar todas as decisões de uma mulher pelo homem que deixou para trás. Demoro-me nesta ideia. A liberdade é uma palavra que todos pronunciam com entusiasmo enquanto não lhes exige uma renúncia.

Blueberry percorrera desertos, enfrentara soldados, índios, pistoleiros, aventureiros e homens sem escrúpulos, escapara à morte tantas vezes que a própria morte deveria ter acabado por considerá-lo um conhecido inconveniente, mas fora incapaz de vencer aquela mulher, não porque ela fosse mais forte do que os seus inimigos, mas porque nunca aceitara ser sua inimiga nem sua propriedade.

E eis que, muitos anos depois, quando o corpo já se inclinava para a terra e a memória se tornava mais vasta do que o futuro, chegava-lhe um jovem trazendo uma carta. As cartas dos mortos são uma forma particularmente cruel de correspondência, porque quem as recebe pode responder a todas as perguntas menos à única que verdadeiramente importa: “Por que não me disseste isto enquanto ainda podíamos falar?”.

O velho abriu a carta. Reconheceu imediatamente o estilo de Pearl, aquela insolência afectuosa, aquela maneira de insultar para esconder a ternura, como se a delicadeza fosse uma fraqueza que uma mulher do Oeste não pudesse permitir-se, e talvez tenha sido nesse instante, mais do que quando ouviu pronunciar o nome dela, que compreendeu que estava morta. Porque os mortos tornam-se verdadeiramente mortos quando reconhecemos que nunca mais acrescentarão uma palavra àquelas que deixaram. Depois olhou para o rapaz. Jim, disse. E logo a seguir, Jimmy. Duas palavras apenas, mas percebe-se que nelas cabiam cinquenta anos de ausência, todas as noites em que Blueberry poderia ter sido pai sem o saber, todos os aniversários que não celebrara, todas as perguntas que não fizera e todas as respostas que agora chegavam demasiado tarde.

Não sabemos se aquele jovem era seu filho, ou apenas o filho da mulher que amara, e talvez a distinção fosse, naquele momento, menos importante do que parecia, porque há parentescos que o sangue estabelece e outros que a memória consagra. O rapaz chorou. O velho pousou-lhe a mão na cabeça, gesto simples, quase paternal. Os homens passam grande parte da existência a procurar palavras capazes de explicar o amor, quando por vezes uma mão pousada sobre os cabelos de alguém diz mais do que todas as declarações que ficaram por fazer.

Ao longe, a família de Blueberry observava os dois homens. Havia ali uma mulher e um rapaz, havia uma casa, animais, cercas, uma vida construída depois de muitas outras vidas. O passado não regressara para destruir o presente, como tantas vezes sucede nas histórias dos homens, mas para lhe acrescentar uma verdade. Pearl não voltaria. Não desceria de um cavalo, não surgiria entre as árvores com aquele sorriso provocador que outrora fizera perder a compostura ao tenente Blueberry, não lhe chamaria patife, nem lhe exigiria explicações por ter envelhecido sem ela. Mas alguma coisa sua estava ali. Talvez nos olhos do rapaz, talvez na maneira de enfrentar um desconhecido, talvez naquela obstinação de atravessar quatro estados para entregar uma carta que poderia ter enviado pelo correio. A vida, indiferente à prudência dos filósofos, continuava a surpreender os homens até ao último instante.

Por fim, Blueberry fez uma pergunta. “Tu... tu ficas um bocado?”. Não lhe pediu que ficasse para sempre, não lhe prometeu uma herança, não lhe ofereceu um nome nem uma explicação para os anos perdidos. Pediu-lhe um bocado de tempo. O velho aventureiro, depois de uma existência passada a conquistar territórios, a atravessar fronteiras e a fugir aos homens que o perseguiam, descobrira finalmente qual era a única coisa que valia a pena pedir. Tempo. Um pouco de tempo para conhecer aquele rapaz, para lhe falar da mãe, para lhe contar como era o Oeste quando ainda havia espaço para os sonhos e para os erros, para lhe dizer que Chihuahua Pearl fora bela, indomável, contraditória, e que talvez por isso mesmo continuasse viva na memória de quem a conhecera.

É altura de fechar este belo álbum. A morte levara Pearl, mas não conseguira levar tudo, que a liberdade dela sobrevivera no filho e na recordação do homem que a amara, e que talvez o amor verdadeiro não fosse o desejo de conservar alguém para sempre, mas a capacidade de aceitar que esse alguém continue a existir para além de nós. E, se ainda pudesse dirigir-me ao velho cavaleiro do Oeste, diria “Fizeste bem, Blueberry, em não lhe pedires que fique para sempre, porque o para sempre é uma promessa que só os mortos conseguem cumprir, e mesmo esses, como acabamos de ver, nem sempre a cumprem”. Depois ficaria em silêncio.

Lá fora, o entardecer avançava. E em qualquer lugar do imenso Oeste americano, numa estrada que já não existia senão na memória dos homens, Chihuahua Pearl continuava a cavalgar, livre como sempre fora, sem olhar para trás, porque sabia que, desta vez, Blueberry não precisava de a seguir. Ela própria encontrara maneira de regressar.

 

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